sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

os tintins do cristiano e o pepino epistemológico

Afinal talvez não! Ou seja, pode ser que não; que se tenha enganado e que as imagens não sejam assim tão pornográficas e atentatórias do pudor, da moral e bons costumes dos foliões que, este fim de semana, vão brincar no Carnaval de Torres Vedras…

Antes, já o Ministério Público de Torres tinha dado provimento, à queixa e mandado retirar, do ecrã do Magalhães, as tais imagens alegadamente pornográficas. O Correio da Manhã publica a fotografia do computador da discórdia. E digo do computador, já que, das imagens em causa, mal se percebe o que representam. Tanto podiam ser mulheres nuas, como foi alegado, como outra coisa qualquer. Duvido mesmo que, na euforia do cortejo e à distância a que os carros alegóricos passam na rua, alguém conseguisse aperceber-se do que realmente estava impresso no ecrã do computador Magalhães. Mas adiante.

Diz o jornal, que a queixa partiu de um morador de Torres, que se queixou à Câmara que, por sua vez, levou o caso a tribunal, onde a magistrada, Cristina Anjos, parece, decidiu que, as imagens em causa, eram pornográficas e como tal deveriam ser proscritas do cortejo. O presidente da Câmara de Torres diz entretanto, que essa mesma magistrada já considera a hipótese de se ter precipitado. Diz que a magistrada se mostrou incomodada, com a polémica e que é provável que venha ainda a despachar no sentido de retirar o labéu ao Magalhães e considerar que as imagens não são afinal pornográficas. A verdade é que – e citamos de novo o presidente da Câmara de Torres… a verdade é que o corpo de delito, ou seja, a queixa foi acompanhada por fotos – e estamos já em plena citação… foi acompanhada por fotos desfocadas, que terão enganado a magistrada, levando-a a pensar que eram imagens pornográficas. Ora, pelo que acaba de ser dito, temos que esta magistrada terá olhado para umas fotografias desfocadas, de umas mulheres alegadamente nuas e concluiu que estava perante um portfolio pornográfico, que deveria ser banido da festa de todos os excessos. Que o Carnaval é isso mesmo. Desde sempre, por tradição e sina.

Já agora e curiosamente, do desfile consta também uma efígie gigante, de Cristiano Ronaldo, vestido à futebolista e sentado, de perna aberta, em cima de uma merda qualquer. Por uma das pernas dos calções, bem visível aos olhos de todos os foliões e folionas de Torres Vedras, aparece um garboso testículo do campeão. Quanto a isso não consta que tenha havido queixas. A Comissão de Festas agradece, que sempre foi mais fácil, lavar a cara ao Magalhães, do que seria cortar os tomates ao Ronaldo!...

E agora salto para as páginas do Jornal de Notícias, onde o casamento homossexual continua a ser notícia, mas agora por causa de uma espécie de sessão de esclarecimento, ou antes, de um debate que aconteceu ontem no Instituto de Malaguês – Malaguês é o nome de uma freguesia de Coimbra.

O mote do debate – justiça lhes seja feita – partiu de uma iniciativa do próprio JN, em conjunto com a Câmara Municipal da Maia e mais um mecenas, no caso o El Corte Inglês. E a iniciativa chama-se, já agora: “Entre Palavras – Fórum da Leitura e do debate de Ideias”.

E foi o que aconteceu… o debate de ideias. De um lado, os que apoiam a ideia dos casamentos homossexuais, em nome do livre arbítrio e da liberdade individual de cada um e da igualdade de direitos… Do outro, os defensores do “não”. Diz o JN, que os adeptos do “não” se mostraram preocupados, com a quebra da natalidade e a eventual e consequente extinção da humanidade.

Ora bem, vamos lá a ver se a gente se entende! O argumento exposto assim desta maneira faz quase todo o sentido, para além de ser vagamente assustador, ao anunciar, de forma tão violenta, o fim do mundo. É bem verdade, que dois homens, por mais que tentem e à luz da ciência actual, não podem gerar descendência… mesmo isto, já vimos que não é bem verdade, que ainda não há muito tempo, um homem engravidou e achou tanta graça, que até consta que quer repetir a experiência. Também no caso das mulheres, a menos que se exclua a inseminação artificial, não é fácil uma mulher engravidar, sem a ajuda de um parceiro macho… Mas, para o caso, isso também não interessa nada. O que talvez fosse boa ideia lembrar a estes jovens alunos é que, não há razão nenhuma directa, ou evidente, para os casais heterossexuais deixarem de ter filhos, só porque os homossexuais resolveram começar a casar-se todos entre eles… Só se for por uma qualquer espécie de pirraça, ou então, mais correcto ainda se calhar, por uma questão de solidariedade… Vocês não conseguem ter filhos, então nós também não os fazemos. Estamos convosco, pá!

Quanto aos alunos, que participaram neste debate, andam no 8º e 9º ano… São miúdos dos seus 13… 14 anitos, por aí... Estão numa óptima idade, para aprenderem estas coisas.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

o ministro não confirma e dos outros também não garanto nada

Já se viram expressões mais estranhas, em fotografias de gente em perfeito estado de lucidez e boa saúde. Basta que a máquina dispare no exacto momento, em que o fotografado está a piscar os olhos e que o apanhe então, de olhos semicerrados, para que o resultado seja o de uma pessoa ficar com ar esgazeado, ou mesmo de quem está à beira de uma apoplexia…. Não terá sido esse, o caso. Que o próprio já confessou, que estava sob o efeito de uns comprimidos, que davam sonolência e lentidão de reflexos e raciocínio. Tê-los-á empurrado – como se costuma dizer – aos tais comprimidos, com um copo de vinho, o que se revelou como uma mistura explosiva. E estamos a falar do episódio, que envolveu o ministro japonês das Finanças. A personagem em questão apresentou-se, como se lembram, com manifestas dificuldades de expressão, numa conferência de imprensa, sábado passado, depois de uma reunião com ministros das finanças e responsáveis bancários dos países do G7…Agora, passada a tempestade inicial, acaba de pedir a demissão do cargo. Pedido já aceite e até já há um substituto para o cargo, mas isso é outra história. Para o que nos trás aqui, contam, para já, as declarações do próprio ex-ministro… "Sinto-me terrivelmente mal por ter provocado tais embaraços ao público japonês e ao Parlamento" – fim de citação. O Diário de Notícias continua o texto relembrando e citemos, que esta parte é importante: “o ministro nipónico surgiu, então (então no sábado, claro!) com um aspecto que se assemelhava muito a alguém que estivesse sob o efeito do álcool. O rosto apresentava-se congestionado, o olhar um tanto ou quanto errático…” e por aí fora. Agora, fixemo-nos nesta passagem, em que o DN escreve que o ministro surgiu com um aspecto que se assemelhava muito a alguém que estivesse sob o efeito do álcool. Não diz que o ministro estava visível e inequivocamente embriagado. Diz que se assemelhava muito a quem estivesse sob o efeito do álcool. Ora, o ser e o parecer não serão, parece, sempre e forçosamente a mesma coisa, mas, uma vez mais, não é isso que nos trás aqui.

O que chama a atenção – e é por isso que foram inventados – é o título da notícia. A letra gorda, a que resume o essencial da importância. A frase forte, a ideia central, a informação depurada de todo o acessório. Pois, e o título da notícia, desta que acabámos de ouvir e que o DN hoje publica, é este: “Ministro japonês pede demissão por ter ido bêbado à reunião do G7”. Informação privilegiada, esta a que o DN teve acesso. O jornal diz, lá pelo meio do texto, que este ex-ministro era já conhecido por – citemos: “gostar do seu copo e ser um provocador nato…” Isso já seria conhecido, o que é novidade é que, apesar de todas as declarações oficiais e do próprio jornal reconhecer que a personagem tinha um aspecto que se assemelhava…ao que já vimos… apesar disso, o DN escrever, em letra gorda, que o ministro foi bêbado para a reunião do G7!

Não diz que parecia que estava com o seu copo, nem que estava azamboado, por ter misturado anti histamínicos, ou lá o que, foi com vinho. Diz que o ministro estava bêbado. É verdade que não diz que estava bêbado que nem um casco… diz só que estava bêbado. O ministro, claro.

E, estes aqui, “Estão prestes a entrar em campo”, anuncia o título do 24 Horas. Quem?... A selecção nacional de futebol?!... Não! Quem está prestes a entrar em campo é um novo canal de televisão. Vai chamar-se TVI 24 e, como o nome denuncia, está ligado à TVI. O 24 quer dizer que vai funcionar 24 sobre 24 horas, o que já não é novidade há algum tempo e que se vai dedicar à Informação. A estreia está marcada para o próximo dia 26. A expectativa é naturalmente muita. O director da estação, José Eduardo Moniz, deseja chegar rapidamente aos portugueses. Diz que é essa a meta do novo canal. Um propósito duplamente compreensível. Chegar ao público e de preferência de forma rápida e eficiente é o objectivo de qualquer um, que se lança no mercado; mais ainda, quando o território em que o negócio se move é o da comunicação. Aí, se não se chega rapidamente ao consumidor – neste caso – ao receptor da mensagem… cai-se naquela situação, a que alguns académicos chamam: falar sozinho. É portanto mais que legítima, a aspiração de José Eduardo Moniz, de chegar rapidamente aos portugueses e ao público em geral. Legítima também, de certa forma irreverente e corajosa, a intenção expressa do director de informação deste novo canal. João Maia Abreu – é ele o director de informação – diz que a TVI vai mexer na pacatez da concorrência. E ora aí está uma das coisas boas, ou se quisermos, um dos efeitos estimulantes da livre concorrência e do mercado aberto. Obriga as pessoas a mexerem-se e a não adormecer à sombra dos louros, ou de qualquer bananeira metafórica. Obriga-as a quebrar os marasmos, a ser criativas, dinâmicas, inovadoras… e é isso que, segundo o 24 Horas, Maia Abreu acredita que este novo canal pode vir a fazer. Quebrar o marasmo – “a pacatez da concorrência”. E diz mais… (deveria ter dito "mas", em vez de "e"…) Mas, diz mais, Maia Abreu. Diz que, o objectivo desta TVI24, é ultrapassar a SIC Notícias – ao que parece, a concorrência mais directa. É mesmo essa, aliás, a frase que o jornal escolhe para título, que diz assim: “Objectivo – ultrapassar a SIC Noticias.”

E aqui paramos um pouco.

Do outro lado da porta elas conversam. Conversa de circunstância, conversa de mães… os filhos, a escola…”Então o miguelinho já sabe escrever o nomezinho dele?” “ O miguelinho?.. É o melhor aluno da turma!...” “Pois sim, mas já sabe escrever o nome dele, ou não?”

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

no tempo em que os cavalos comiam ostras

Diz o Correio da Manhã, que o homem se arrisca agora a uma pena de 3 anos de prisão. O homem é identificado como um ex–emigrante português, de 58 anos e um auto didacta da arqueologia. Diz o jornal que, há já 4 anos que Mário Tavares – é como se chama – escava em terrenos públicos de Valpaços e Chaves, em busca de vestígios de antigas civilizações. Terá encontrado mais de cem objectos de riqueza inestimável – diz o jornal – mas que nunca os tentou vender. Aliás, parece que, face à riqueza histórica dos achados, nem há cotação no mercado para eles. Não forçosamente por isso, mas a verdade é que não vendia, tinha-os guardado em casa. Seriam talvez o seu pequeno tesouro pessoal, o seu pecadilho. Moedas e objectos em barro, granito e bronze e ferro… vestígios das épocas romana e medieval. Diz que usava um detector de metais, para o ajudar nas buscas…

Acontece que a Policia Judiciária acaba de o constituir arguido por, à face da lei especial que regula a matéria, ser crime, o que se chama de violação de vestígio arqueológico. Será essa a moldura, no quadro da situação presente. E é por isso também que este arqueólogo amador – e aqui no sentido, se calhar, mesmo literal da palavra… amador, o que trabalha por amor à arte… é por isso então que, pode vir a ser condenado a 3 anos de prisão. O Correio da Manhã lembra que, já o ano passado, tinha chamado a atenção para este "entusiasmo" – como lhe chama – o "entusiasmo" de Mário Tavares. Foi em Março, que o jornal o entrevistou. Na altura, tinha acabado de descobrir uns artefactos romanos, num terreno particular. Disse, então, que tinha autorização do dono do terreno, para fazer as escavações e que o Estado não tinha, por isso, nada que se intrometer. No caso, a intromissão de que falava, era a do Instituto Português do Património. Disse também que, depois desse episódio, esperava que as instituições competentes promovessem um levantamento do local. Já que, sozinho não o conseguia fazer.

E a notícia acaba aqui. Não diz se, entretanto, as tais instituições, de que falava, promoveram ou não os levantamentos, ou o que fosse… Sabe-se é que, todo o espólio que guardava em casa, está agora à guarda do museu de Macedo de Cavaleiros e que a Judiciária o constituiu arguido, num processo crime de violação de vestígio arqueológico, que lhe pode valer 3 anos de prisão efectiva.

O que se sabe também, apesar de não ter grande coisa a ver com esta conversa, é que o património nacional continua a ser vendido, aos cacos e em peças, para enfeitar casas e jardins de gente com gosto requintado, o mesmo acontecendo a muita arte sacra, neste caso, claro, para gente de gosto requintado e também devotas paixões.

Só uma última questão, enfim, quase tão desgarrada do assunto, como a anterior… e se em vez de o mandar prender, o contratassem para ajudar nas escavações?!...

E, antes que me esqueça, deixem que vos cite Edward Estlin Cummings, poeta, pintor, ensaísta, dramaturgo e norte-americano.

E que o cite, tal como o Público hoje o faz. E diz assim: “Vivo tão acima dos meus rendimentos que se pode quase dizer que vivemos separados”.

Para bom entendedor, esta meia palavra só peca por tardia.

E já que estamos no Público, deixemo-nos ficar só mais um bocadinho, porque é justamente o jornal Público, que hoje anuncia, na primeira página, que mais de 35 mil imigrantes conseguiram a nacionalidade portuguesa, durante o ano passado. Um número 4 vezes superior, em relação ao ano de 2007. O jornal explica este aumento com a entrada em vigor da nova lei da nacionalidade. É por isso que, segundo o jornal, as faces dos portugueses estão a ficar cada vez mais heterogéneas… gente de África, dos Brasis, da Moldávia…

E depois, a fotografia, que o Público escolheu para ilustrar a notícia.

Presume-se que esta mesa, que aparece em primeiro plano cheia de papéis amontoados em pequenas pilhas ordenadas e mais ou menos classificadas segundo o assunto e o andamento do processo, tenha sido tirada numas instalações do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, assoberbado, como já se previu, de trabalho, por estes dias…

Não se sabe se a fotografia foi ou não encenada. Ou seja, não se sabe, se esta quantidade enorme de papéis amontoados numa certa ordem caótica sobre a mesa, em primeiro plano, foi de facto posta ali para ilustrar de forma simbólica a quantidade de trabalho com que o SEF se confronta, depois de Schengen e dos acordos de livre circulação. Não se sabe, portanto também e logicamente, se é mesmo assim que os documentos estão arrumados, ao monte em cima de uma secretária…O que se sabe é que, precisamente um dos montinhos empilhados sobre a mesa diz respeito a vistos de Schengen. Sabe-se, porque está lá escrito, garrafal, na página de rosto, que surge na fotografia. Um outro montinho, já quase fora do enquadramento, dirá respeito, por seu lado, aos chamados “Vistos de Estado”, também se consegue ler sem esforço. E pelos vistos há mais, só que na fotografia já se não consegue ver o que está escrito nesse outro que, este sim, já só deixa ver o início da frase. Vistos de… o resto já não se vê. Agora o que não deixa mesmo margem para dúvidas nenhumas é este outro que se destaca bem ao centro do instantâneo. E aqui, a primeira coisa que salta à vista é que, palavra Visto, não aparece. Em vez dela, temos a palavra “Títulos”.

“Títulos caducados…”, para ser mais preciso e rigoroso. E caducados, já agora, há quanto tempo?, para ser só um bocadinho mais exacto… Há muito tempo. É o que está aqui escrito: “Títulos caducados há muito tempo. “

Sejam lá esses títulos o que forem, para o que interessa e mais importa, já caducaram há muito tempo. Há tanto tempo, se calhar, que até já nos esquecemos de os arrumar onde não estorvem. É que, pela fotografia, o espaço livre em cima desta secretária é mesmo pouco para tanta papelada à espera de despacho.

Só mais uma dúvida aritmética… quanto tempo é muito tempo? E bastante tempo? E qual deles é mais tempo? Que pena não termos agora tempo para esclarecer esta quase angústia metafísica…

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

quase pior a amendoa, que o cianeto... apesar de, como dizem, terem ambos um gosto muito parecido(!)

Ora comecemos por aqui. Diz o Diário de Notícias que o BES – Banco Espírito Santo -quer mais 150 mil novos clientes no retalho.

Para o administrador do Banco, citado pelo jornal, estes 150 mil novos clientes fazem parte da “estratégia de manutenção de uma trajectória de elevada ambição em termos de dinâmica comercial”… Ora, termos técnicos aparte, esperemos que o BES tenha mais sorte com os 150 mil novos clientes, que outros tiveram, quando sonharam com números idênticos, em outras guerras.

Depois, recua-se um par de páginas neste Diário de Notícias e eis que surge esta assombrosa manchete. Digo assombrosa, porque, à primeira leitura, o título vale quase como um susto. Diz assim: “Famílias sem dinheiro agravam crise em 2009”. Homessa! As famílias sem dinheiro agravam a crise, ou reflectem antes os efeitos dessa mesma crise?! Quem nasceu primeiro afinal? O ovo ou a galinha? Ainda hoje ninguém sabe.

Agora neste outro caso – e voltamos a ele, desculpem, mas os jornais não se têm calado com o assunto nos últimos dias… o dos casamentos homossexuais. E hoje, o DN cita a opinião de um partido que se auto proclama de Nacional e Renovador. É o PNR, cujo líder, José Pinto Coelho terá ontem manifestado o veemente repúdio pela proposta socialista, de levar a matéria a discussão, para já no congresso do partido… depois se verá, se o assunto sobe a discussão parlamentar…

Ora, a primeira dúvida que surge é saber até que ponto se deve ou não dar eco a certas declarações e opiniões e tomadas de posição. Mas também há quem diga, que não há silêncios inocentes e calar, ou fazer que não se sabe é meio caminho para as mais desagradáveis surpresas. Mas não nos dispersemos e já que temos a valsa começada, como diz a cantiga… vamos em frente.

Disse então José Pinto Coelho em nome da Renovação Nacional, que está veementemente contra a discussão, no congresso socialista, do assunto dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Não é o único nem o primeiro. Mas depois, os argumentos começam a diluir-se e ficar um pouco difusos. O primeiro argumento é que esses casamentos vão destruir a sociedade, Aliás, vão destruir os valores da sociedade. Só que depois, a argumentação segue por outros caminhos, quando o líder Nacional Renovador anuncia a determinação no combate à promoção da homossexualidade. E aqui já não se fala em casamento. Fala-se no combate à homossexualidade, ou à promoção da homossexualidade… Ou como se, a possibilidade de um casamento civil, fosse aliciante quanto baste, para um heterossexual decidir reciclar-se, ou, se quisermos, renovar-se e abrir-se a outras experiências…

Mas faltava ainda conhecer o verdadeiro Graal, que faz mover o líder dos nacional renovadores… diz José Pinto Coelho que é para enfrentar os dogmas do pensamento único. Essa é uma das razões que levam José Pinto Coelho, em nome da Renovação Nacional, a opor-se veementemente à discussão, no congresso do PS, dos casamentos de que se fala… Para enfrentar os dogmas do pensamento único. Fica por saber qual a abertura de Pinto Coelho para levar o assunto a discussão de um futuro congresso do partido que representa. Em nome do pensamento plural, claro está!

E, ainda à volta das polémicas declarações que negam o Holocausto , o Papa Bento 16 acaba de condená-las, como inaceitáveis e intoleráveis.

Mas que, mesmo assim, mantém a decisão de reintegrar no seio da madre igreja o padre inglês da Fraternidade de S. Pio 10º. O tal bispo que disse que nunca houve câmaras de gaz em Auschwitz e Dachau e nos outros campos de extermínio nazis. Ontem, no Vaticano, durante o encontro com associações religiosas judaicas, o papa sublinhou que a Igreja está profunda e irrevogavelmente comprometida em rejeitar todo o anti-semitismo… Convenhamos que a relação causa efeito não é aqui completamente clara, ou seja… quando o bispo inglês nega a existência das câmaras de gaz, é indiferente quem eventualmente possa ter sido morto, nessas câmaras que, segundo ele, nunca existiram. Ou seja, tanto faz que tenham sido judeus, ou ciganos, ou deficientes, ou outra qualquer gente, que para a doutrina social nacionalista fosse considerada como sub espécie, ou ameaça perversa.

E será isso que Bento 16 quer dizer quando afirma, como o fez, ainda no mesmo contexto e circunstância, que – abram-se as aspas – "o ódio e o desprezo por homens, mulheres e crianças, que se manifestaram com o Holocausto, foram um crime contra a Humanidade" E continua, o papa, dizendo que isso "devia ser claro para todos, especialmente para os que se baseiam na tradição das sagradas escrituras, segundo as quais cada ser humano é criado à imagem e semelhança de deus.

E aqui é que tropeçamos neste pequeno imbróglio… Então e os que não fazem assim tanta questão quanto isso, nessa divina ascendência, terão eles, por causa disso, menos direito à vida e a ser tratados com a dignidade mínima, que cada ser humano merece e com o respeito que cada um deve ao vizinho do lado, seja ele, o bispo da Cantuária, ou o mais irredutível heresiarca?!...

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

duas patuscas personagens

É ás vezes nas pequenas coisas, que se escondem as maiores surpresas, as mais surpreendentes revelações. Atente-se então nesta breve do Diário de Notícias.

Tem a ver com a lei, que descriminaliza a interrupção voluntária da gravidez – vulgo – lei do aborto.

Diz o título, que as mulheres são as vítimas. E diz, citando a Federação Portuguesa pela Vida, que ontem, na voz da presidente Isilda Pegado, considerou que, as grandes vítimas da liberalização do aborto, são as mulheres, exigindo ao Estado que defina objectivamente qual o seu papel. Disse, Isilda Pegado, que o que se vê todos os dias são mulheres com depressões, arrasadas pela situação do aborto. Fica por esclarecer se as mulheres, de que Isilda Pegado fala, se sentiriam menos deprimidas e arrasadas, se o aborto continuasse a ser proibido e praticado na clandestinidade, com todos os riscos conhecidos e imprevistos… Sobra entretanto a revelação surpreendente de Isilda Pegado… de que são as mulheres as vítimas! É estranho, mas pode ser verdade, que sejam as mulheres as vítimas. Tão estranho, como se dissesse que são elas também as beneficiárias do fim dos abortos clandestinos. Tão estranho como, de repente, ouvir uma federação, que se auto proclama defensora da vida, esquecer-se dos nascituros e decretar que são as mulheres as principais vítimas de uma interrupção voluntária da gravidez. E já agora, a palavra "voluntária", será mesmo só uma liberdade poética a enfeitar a frase, ou qualquer coisa mais? E,admita-se que sim, que nunca é uma opção tão voluntária quanto isso… mas em verdade, alguém imagina um monólogo deste género:” … que tédio! Mais um dia sem nada p’ra fazer? Vou às compras, ao cabeleireiro, visitar as primas?... Melhor, já sei! Vou fazer um aborto.

É o diabo que anda à solta, é o que é!... O padre australiano Danny Nalliah não tem dúvidas, que o fogo que arde a olhos vistos na Nova Gales do Sul e no estado de Vitória é obra de Satanás, o próprio. Disse-o, ao jornal australiano The Age, que a protecção de deus abandonou o estado e Satanás está a atacar a nação. O sacerdote é também o líder de uma organização chamada Catch the Fire Ministries – ora, em tradução rápida, seria qualquer coisa como - Ministros que apanham o fogo. Será uma organização formada ad-hoc, na circunstância dos actuais incêndios? Ou o fogo de que se fala é mesmo o tal sulfúrico e endiabrado fogo dos infernos? … Isso não diz, mas diz – o padre Nalliah que, por trás de tudo, estão pecados como a aprovação da lei do aborto, o ano passado, na Austrália.

Por isso, o padre pede uma semana de oração e jejum para, entre outras coisas, presume-se – pedir piedade pela lei do aborto e outras leis injustas e ateias.

O ex ministro das finanças Peter Costello já disse que apoia a semana de jejuns e orações, mas pelas vítimas dos incêndios, que do resto, acha má política misturar o sofrimento das pessoas, com questões políticas… disse mesmo que acha “chocante, cruel e errado”.

Mas dizia o padre Nalliah, que deus abandonou a Austrália por causa de coisas como a lei do aborto. Foi isso que levou Deus a permitir que Satanás, ele próprio, executasse o castigo divino. Temos então, deus e o diabo trabalhando em equipa! Pode ser um bom sinal de que, ao mais alto nível, as coisas estão bem entregues… adiante portanto.

Mas há aqui uma dúvida! Porque é que agora se fala em obra de Satanás, quando, por exemplo em 1918 e no ano seguinte, a gripe espanhola matou mais de 12 mil pessoas e ainda hoje se diz que essa foi a pior tragédia que se abateu sobre o país… Gripes não contam? Então incêndios. Os que arderam entre esse Dezembro de 1938 e o Fevereiro do ano seguinte fizeram quase 500 mortos, mais do dobro dos que se contabilizaram já. Diz-se, que o número de vítimas mortais nos incêndios que agora ardem pode chegar às 3 centenas – de momento aproximam-se das 200. Em qualquer dos casos, não se chega aos 500! Mas, esses incêndios, provocados pela onda de calor, e que são, por seu lado e até ao momento, a pior tragédia envolvendo fogos na Austrália não seriam também um sinal de que deus estava zangado, já, nessa altura, em 1938 e soltou o diabo p’ra pegar fogo à Austrália, ou ainda não?

Não interessa. Já foi. Mas agora e desta vez, não sobram dúvidas… o diabo anda à solta e, garante o padre Nelliah, não é um pobre diabo qualquer, mas Satanás ele próprio…Enfim, Satanás ele próprio…O comandante em chefe de todas as legiões infernais… será talvez um pouco exagero, mas uns pequenos diabretes endemoninhados, aí, talvez. É que, para além da extraordinária onda de calor e das trovoadas e raios que explicam alguns dos casos, há ainda a opinião dos especialistas e investigadores, que apontam para fogo posto. E é por isso que as autoridades australianas mobilizaram uma unidade especial, para perseguir os responsáveis incendiários. A notícia não diz se, nessa unidade especial, se inclui algum exorcista… Sabe-se que, quando os apanharem, aos criminosos incendiários, é por homicídio involuntário, ou mesmo homicídio em primeiro grau, que hão-de responder, não tanto por blasfémia ou heresia. A César o que é de César.

Talvez que, quando trovoadas e eclipses se explicavam por insondáveis fúrias e destemperos divinos, a vida fosse mais maravilhosa, tivesse maior mistério, mais encanto… mas também se morria muito mais. Haviam mais doenças e o saneamento básico… meninos, desculpem, mas era uma choldra!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

I feel gay today. oh so gay!...

Estava na agenda e o Diário de Notícias lembra hoje, que a Conferência Episcopal Portuguesa se reúne esta 3ª feira em Fátima, para discutir várias coisas e encontrar soluções e remédios. Assim meio vago, porque, como disse ao jornal o porta-voz da conferência, vai ser mais uma reunião de trabalho do que assembleia plenária, e que, por isso, não se pode antecipar grande coisa sobre a agenda de trabalhos…

Sabe-se só que, em jeito de período antes da ordem do dia, se há-de debater a crise económica e, aqui sim, tentar encontrar os tais remédios para a resolver, sendo que há assuntos mais importantes para resolver, do que alegadamente os chamados assuntos da actualidade. O que parece certo é que na mesa de trabalhos, dos 8 bispos convocados para este Conselho, está a questão dos casamentos entre homossexuais. Diz o título do DN, que os bispos debatem hoje a posição a tomar sobre casamentos gay. Assim mesmo, em inglês, como se foi tornando hábito; como se não houvesse tradução em português para essa circunstância… Mas adiante, que isto de nomes trás muito que se lhe diga.

E disse. Já o disse, o próprio cardeal Policarpo, em Janeiro, que na matéria em apreço, o problema pode ser o nome que se dá, à coisa em si. Casamento.

O DN cita entre aspas o cardeal José Policarpo… “Chamem-lhe outra coisa, mas não lhe chamem casamento”.

Sabe-se que a Igreja vai continuar a lutar pela promoção do casamento e da família – disse o porta voz da Conferência – e que entre outras coisas vai continuar a preparar os noivos para o matrimónio e a aconselhar as famílias e casais que precisem. Mas, tudo isso, desde que sejam casais heterossexuais---ou seja, um homem e uma mulher … uma mulher e um homem… agora casamentos entre duas pessoas do mesmo sexo é que nem pensar. Ora aí está! Ora aí está, que não é isso que a Igreja, através da voz do cardeal José Policarpo, diz e defende. A Igreja não parece ofender-se por aí além, se duas pessoas do mesmo sexo se casarem. É verdade que também não explica se, depois de o fazerem –e se isso vier mesmo a ser possível em Portugal – lhes dedica uma catequese especial, ou simplesmente os expulsa da Casa de Deus… O que se sabe de certo e seguro é que é fundamental, pelo menos para o cardeal Policarpo , que não se chame casamento às futuras e eventuais uniões matrimoniais entre pessoas do mesmo sexo. O mesmo seria quase dizer que, à sexta-feira, dia de penitência, podes comer a carne que quiseres, desde que lhe chames carapau de gato.

Ou, um pouco mais longe, já que o céu é o limite… Podes adorar quem tu quiseres, desde que não lhe chames Deus!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

trolhas e engenheiros


O Público de hoje dedica-lhe página inteira e para ilustrar a história até publica a fotografia do protagonista. A história, ou melhor, a notícia é a de que José Sócrates promete baixar as deduções fiscais para os mais ricos. Foi ontem, no Porto, onde o secretário-geral foi apresentar a moção ao Congresso e aproveitou para anunciar a tal medida fiscal, que alegadamente vai repor alguma justiça e equilibrar a balança entre contribuintes mais ricos e outros de menores rendimentos. Os economistas dividem-se entre a justiça desta medida e o eleitoralismo, eventualmente implícito no anúncio do primeiro-ministro. De uma forma genérica, as opiniões balançam entre a justiça do princípio em geral e o fraco impacto que a medida poderá vir a ter, no balanço e contas final.

Campos e Cunha, por exemplo. O ex- ministro das Finanças acha que, medidas destas, deveriam surgir integradas num pacote de reformas fiscais e não assim, de forma avulsa e ad hoc , ou, como Campos e Cunha disse – mais para preparar eleições do que para resolver a vida dos portugueses… António Nogueira de Campos, ex- secretário de Estado das Finanças, é dos que acham que a medida vai ter pouco impacto , já que envolve montantes relativamente pequenos. António Carlos Santos, ex- secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, sob o consulado de Sousa Franco, concorda com o princípio em geral. Acha-o justo e principalmente bem-vindo, nesta altura de crise aberta e declarada.

Agora, Sócrates ele próprio. Ontem, no Porto, defendeu a sua dama, dizendo que não há nenhuma razão, para aqueles que são mais ricos passarem a deduzir o mesmo, que a classe média portuguesa deduz… Continuemos a citar o primeiro ministro… que têm despesas com a educação, despesas com a saúde, muito bem (isto é Sócrates a falar), mas as suas deduções (deduz Sócrates)) não devem ser o mesmo que são para a classe média. Ora, é uma opinião respeitável, sendo que, tendo em conta que os descontos e deduções são feitos em percentagem dos rendimentos… é de uma elementar aritmética que, quem tiver mais rendimentos acaba por contribuir com uma parcela maior, para o deve e o haver… haveria de ser assim… e assim seria se todos declarassem rigorosamente o que realmente ganham e todos cumprissem o que a lei determina e o Fisco obriga…

E chegamos à fotografia. A legenda diz que Sócrates, ontem, no Porto, destacou a política fiscal. E ainda bem! Ainda bem, que a legenda explica o que está a fazer o primeiro-ministro, ou o que acabava de fazer, quando o fotógrafo disparou o instantâneo.

Porque, se não fosse a legenda, teríamos de nos lançar à adivinhação. Passando a explicar… A sala está vazia. Ou seja, as cadeiras atrás de Sócrates estão vazias. Só o primeiro-ministro surge em grande plano erguendo os braços, flectidos por trás do pescoço, acima da cabeça, enquanto fecha a boca com força, apertando os lábios numa expressão que não se percebe se é de esforço, ou de um contentamento à beira da explosão. Uma atitude, ou postura, que facilmente se poderia confundir com o gesto de uma pessoa a espreguiçar-se. Acontece que, o olhar de Sócrates se perde para fora de campo. Já vos falei da expressão nos olhos?... É de um contentamento mal contido. Sócrates erguendo os braços por cima da cabeça, punhos cerrados, boca apertada num esgar de esforço e os olhos brilhando de um contentamento mal contido. Assim mesmo e tal e qual, descartada que seja a hipótese, por absurda e improvável, do primeiro-ministro estar a espreguiçar-se, resta uma legenda bem mais óbvia, que a que o Público escolheu. “Sócrates festeja o golo da selecção Nacional”. Podia ser a legenda e ninguém desconfiava. “Sócrates explica como se deve colocar correctamente um chapéu de campino”. Também encaixava. Mas não. Diz o Público, que Sócrates destacou ontem no Porto a política fiscal. Ora aí está… uma imagem vale mais que mil palavras?!... Olhe que nem sempre, shô tôr, olhe que nem sempre!


E esta notícia já por aqui tinha passado, pelas páginas do JN. Hoje acrescenta-se-lhe o veredicto final. O viaduto vai mesmo abaixo.

O viaduto do Forte da Casa, no concelho de Vila Franca de Xira. O mesmo que foi construído há 8 anos e nunca chegou a servir para coisa nenhuma.

Diz o jornal que, “com 8 anos de construção e 2 milhões de euros depois, a Câmara de Vila Franca vai demolir o viaduto do Forte, uma ponte cuja altura foi mal calculada, não tendo saída de um dos lados, por embater numa serra”. É bem verdade, que a fotografia não deixa dúvidas. O viaduto desemboca mesmo de encontro a uma colina sem saída aparente. Aparentemente, porque os construtores rodearam entretanto a situação construindo uma estrada contornando o morro, abatendo, segundo o JN, árvores centenárias inseridas numa área de Reserva Ecológica Nacional. Aliás, o projecto chegou a ser alvo de uma providência cautelar e de um relatório crítico, do Laboratório Nacional de Engenharia Civil, precisamente por se encontrar em áreas de redes agrícolas e ecológicas. Mas fixemo-nos no essencial e mais óbvio. E o óbvio é que o tal morro já lá estava, quando os planos foram desenhados no papel. Diz o jornal, que apesar de fiscalizado por uma empresa de segurança, cedo se percebeu que o viaduto não tinha saída, colocando-se na altura a hipótese de se escavar um túnel por baixo da colina. O que não chegou a ser feito, porque punha em risco as urbanizações vizinhas. Decidiu-se então construir uma estrada a contornar o monte. Desmatou-se o local e construiu-se uma estrada, que leva ao cimo da pequena serra. Mas, mesmo aqui, o tiro saiu um pouco ao lado. Consta que a estrada tem uma inclinação superior ao permitido por lei e tem lá pelo meio uma curva demasiado apertada para ser segura e que choca, além disso, com uma área de serviços do aeroporto da Portela…

A Câmara não sabe ainda quando, mas uma coisa é certa, o viaduto vai mesmo ser demolido, já que não serve a ninguém. Foi construído em contrapartida de umas licenças de construção, agora a Câmara espera reaver algum desses 2 milhões de euros gastos, com o dinheiro que conseguir, em outros licenciamentos futuros de novas urbanizações no Forte da Casa e Póvoa de Santa Iria. Diz o jornal que, depois e a seu tempo, um outro viaduto será construído no mesmo local. Desta vez, uns metros mais alto, para não chocar com a serra.

Porque em verdade e bom rigor, a parábola em que a fé move montanhas não parece aplicar-se à engenharia civil, ou às obras públicas.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

o primo Basílio, profeta aziago e os azeiteiros da medicina

Nem 8 nem 80, costuma-se dizer... Neste caso, haverá decerto um meio-termo, entre o optimismo de quem assegura que tudo vai acabar bem no melhor dos mundos e os arautos do apocalipse, os profetas da desgraça.

E vem isto a propósito das declarações de Basílio Horta, ontem e à margem de uma conferência sobre as relações económicas entre Portugal e Angola.

Queria-se saber o que pensava sobre a crise, o presidente da AICEP – a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal. Uma agência governamental, que se propõe captar investimentos estrangeiros para o país. E respondeu então, Basílio Horta, que não sabe o que há-de fazer.

No Correio da Manhã, Basílio Horta diz que o Governo já fez tudo o que podia ser feito, para combater a crise. Acrescenta depois, que o Executivo está a fazer tudo o que pode para travar os efeitos da crise. Já fez tudo o que havia para combater a crise e está agora a fazer tudo para combater os efeitos da já referida e supracitada crise; o que, se atentarmos bem, são de facto, ou podem ser, duas coisas distintas. Lembra que o Governo criou, antes mesmo de outros parceiros da União Europeia, linhas de crédito para as empresas, medidas de apoio às famílias e por aí fora. E por isso, tudo o que pode ser feito, foi feito e não há mais nada a fazer É por isso que Basílio Horta se sente angustiado, por exemplo, com as notícias diárias de despedimentos.

Passamos ao Diário Económico e afinal não! Ou seja – diz a manchete que, para Basílio Horta, o Governo pode ainda fazer mais contra a crise. Diz o jornal, que foi a dimensão da crise que levou o presidente da AICEP a esse raro desabafo. Raro e arrasador! “Um abalo de terra”, foi como classificou a situação provocada pela crise financeira e económica em curso. “Uma crise gravíssima, quase como um abalo de terra, que está a gerar uma angústia profunda, porque não sabemos o que fazer mais”. Que ela é tão grave, que é quase uma emergência nacional, a exigir que se ultrapassem todas as divergências partidárias e se avance num esforço conjunto, de solidariedade nacional. Nada como uma pessoa avalizada, para nos dizer o que já se sabia. Sempre dá outro lastro à informação, outro crédito à própria realidade. E a realidade é que a crise é muito forte e Portugal não está isolado – é ainda a conclusão de Basílio Horta…

Basílio Horta, que diz que, apesar de tudo e deste cenário quase sem esperança nem saída, a agência que dirige está a fazer tudo o que pode, para amenizar os efeitos da crise.

E os efeitos sentem-se de forma violenta nos despedimentos diários. Isso aumenta a angústia de Basílio Horta, que às televisões e à saída da tal conferência lembrou que, todos os dias, há empresas a fechar e fazer lay out !

O Diário Económico reproduz entre aspas a declaração de Basílio Horta – “todos os dias há empresas a fechar e a fazer lay off”.

Claro que sim. Foi mesmo um lapso de linguagem de Basílio Horta, que o jornal em bom tempo e educada e discretamente corrigiu. Lay out, em vez de lay off, é um erro que qualquer um pode cometer, num contexto tão mais assustador, como é esta crise que nos ameaça.

Mas, mais que a coisa em si, assusta é ouvir, figuras com responsabilidades de gestão de parte dos nossos destinos confessar, que já não sabe o que há-de fazer mais… Como quem ata o leme ao mastro e encomenda a alma à Senhora das Tempestades…



E esta tem chamada de capa no Jornal de Negócios de hoje e diz que as farmacêuticas estão a recorrer aos tribunais, para evitar a concorrência dos medicamentos genéricos.

O assunto merece duas páginas na edição de hoje do jornal. E logo de entrada expõe-se o essencial dos argumentos em confronto. De um lado, uma representante de uma farmacêutica multinacional diz que as empresas de genéricos estão a explorar a falta de uma justiça rápida em Portugal… do outro, o representante da Associação Portuguesa de Genéricos diz que é totalmente ilegítimo, que as empresas tentem alongar o período de patente, por forma a impedir a entrada dos genéricos no mercado.

Porque será isso que está a acontecer. O número de processos entrados em tribunal conta-se às dezenas. Uns merecem despacho a favor dos laboratórios queixosos, outros dão razão às empresas de genéricos, admitindo que a concessão de “Autorização de Introdução no Mercado” não viola os direitos de propriedade industrial dos laboratórios detentores das patentes. Há mais, entretanto… Consta que, conforme as comarcas, assim a decisão. Ou seja, por exemplo, em Sintra consta que as decisões têm sido mais favoráveis às empresas de genéricos, enquanto Lisboa se inclina mais perante os argumentos dos detentores das patentes originais dos medicamentos. O jornal relata mesmo um caso, em que o laboratório queixoso preferiu levar a queixa ao tribunal de Lisboa, porque desconfiava que no de Sintra podia perder a causa.

E aqui, a história, que já se arredava manifestamente do território da saúde pública e do bem comum, se entorna completamente para um outro cenário

Fala-se entretanto num estratagema que, os laboratórios alegadamente em prejuízo, encontraram para ir levando a água ao seu – deles – moinho. São as acções judiciais. Porque, em principio o que se faz é interpor uma providência cautelar sobre o Infarmed, para travar a comercialização dos genéricos. Esse é um processo de resposta relativamente rápida, por parte dos tribunais. Acontece que, como já aconteceu, quando os tribunais acabam por dar razão aos dos genéricos, então os queixosos avançam com uma acção principal – é assim que se chama – e isso já é coisa para se arrastar até anos, a ser despachada pelos tribunais…

A matéria é delicada e já percebemos – pelo menos – os interesses essenciais que estão aqui em jogo. Fica claro que, a propriedade industrial e o direito de autor certamente, mas, o que mais assusta os laboratórios, são os milhares de euros, que podem perder por ano, com a entrada dos genéricos em força no mercado. Um responsável, por um laboratório de genéricos, disse ao Jornal de Negócios que, se lhe tivessem aprovado 3 medicamentos que queria introduzir no mercado, teria facturado, com cada um deles, qualquer coisa como 3 milhões de euros de receita, num ano. Com cada um deles!

Agora e já de saída deixem que partilhe convosco esta dúvida. Cito o Infarmed, tal como o jornal o faz…e diz assim: “o Infarmed entende que, a concessão de AIM (Autorização de Introdução no Mercado) a empresas de genéricos, não ofende os direitos de propriedade industrial das empresas titulares de patentes, pois tais direitos apenas são susceptíveis de ser violados com a efectiva comercialização dos medicamentos.

Portanto, depois de oficialmente autorizados a entrar no mercado, para não ofender direitos de propriedade, as farmácias teriam de oferecer os medicamentos genéricos a custo zero aos doentes.

Genericamente soa bem, mas é tão pouco provável como curar gripes com água oxigenada.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

a aldeia dos macacos

Ora vamos a ela, à discreta e breve notícia que hoje fecha a edição do 24Horas…

Mas antes, deixem que cite só o primeiro parágrafo desta outra, que vem no Público. Aliás, o primeiro parágrafo e o primeiro período do segundo parágrafo, já agora. Diz assim: “O ex ministro da saúde, António Correia de Campos admitiu ontem a existência de excessos e até de fraudes no sector, classificando-as como perfeitamente normais”. O sector é naturalmente o da Saúde. Segue depois dizendo – o ex ministro – que é perfeitamente normal que haja 2… 3… 5% de fraudes no Serviço Nacional de Saúde. Lá mais para a frente continua dizendo, que tudo se deve à “organização humana” e que “em todas as grandes organizações há sempre ovelhas escuras, ranhosas, ovelhas negras”.

Admitamos que não há aqui matéria para acusar o ex ministro de xenofobia retórica, mas ressalve-se que, como se costuma dizer, em bom português é ovelha ronhosa, que se diz. Que tem ronha, que faz ronha… E isso não tem a ver com a cor da lã. Adiante e saltemos então para a última do 24.

A que diz que a Oposição, na Câmara de Lisboa, chumbou ontem a doação de 70 mil euros para plantar árvores. A doação de uma empresa, que o jornal não identifica, mas, para o caso, também não é preciso. Para o que conta, fica que a Oposição da Câmara de Lisboa chumbou a proposta de doação de 70 mil euros, à autarquia, por uma empresa, para a plantação de árvores. Admito que não faço a mínima ideia de quantas árvores se podem plantar com 70 mil euros, mas uma só que fosse, já seria ganho. Mas o que está aqui em causa são os argumentos que levaram ao chumbo. Segundo o 24 foi porque a Oposição da Câmara de Lisboa considerou que se estava perante um contracto de publicidade e não de uma doação, assim mesmo, tout court, desinteressada e sem contrapartidas.

Há decerto uma base insofismável para esta argumentação. Haverá talvez o receio que os não identificados mecenas caiam na tentação de afixar, em cada uma dessas árvores, um cartaz gigantesco a anunciar o patrocínio. Um cartaz tão grande, que esconda a própria árvore, ou acabe a usá-la quase só e apenas como suporte de afixação de publicidade. Isso, claro que seria tão pouco interessante, como quase pouco provável. Estou a ver uma coisa mais no género de como estão os bichinhos no jardim zoológico. Esta girafa é patrocinada, por exemplo, pelos sabonetes Aurora; ou, este periquito é apadrinhado pelas rações Piu Piu… Consta que este foi o processo que o Zoo de Lisboa descobriu para salvaguardar a própria sobrevivência. Os bichos não se queixam e os visitantes também não. Ou seja, não é por causa dos anúncios dos mecenas, que as pessoas deixam de prestar atenção à bicharada.

Claro que muito menos discretos foram os mecenas, que este ano a Câmara de Lisboa arranjou para financiar as luminárias de Natal. Sendo que, para muito boa gente, foi um pouco difícil perceber, pelo menos ao princípio e por exemplo, o que estava a TMN a fazer, de tenda montada em plena rotunda do marquês de Pombal… Aí também os argumentos eram idênticos, aos do Jardim Zoológico… Se não fossem os mecenas, não havia iluminações de natal … Doação, ou contracto de publicidade, do que me lembro, a polémica só surgiu depois e não directa e espontaneamente provocada por protestos da Oposição autárquica na Câmara de Lisboa.

Neste caso há-de haver outras razões e pormenores que uma breve num jornal não pode contar… ainda mais já em fecho de edição, já de saída, quase a cair da página abaixo… mas assim mesmo e só com o que fica dito, fica também a sensação de que alguém poderá estar a tomar a árvore pela floresta.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

há-de, tudo... como na farmácia.

Vem na edição de hoje do 24 Horas… Contas para pagar, a partir de agora, alegadamente de forma mais fácil e acessível. A ideia é essa, pelo menos e à partida. Diz o jornal que a partir de hoje já se podem pagar facturas através do Multibanco, em balcões tão díspares e improváveis como o das mercearias, pastelarias, ou farmácias. Falamos de contas do gás, da luz, da água, carregar telemóveis…

Os estabelecimentos que queiram aderir à ideia só têm de contactar o banco, formalizar o pedido e esperar que ele seja aceite. Depois, um dístico bem visível há-de dizer que ali – naquela farmácia, por exemplo – também se podem pagar as contas da água, ou da luz, ou do resto, que já vimos. Diz o jornal, que se espera que esta medida possa ajudar a trazer mais clientes para esses balcões específicos. Espera-se também que assim, os menos à vontade com estas tecnologias avançadas, possam receber a ajuda, por exemplo do farmacêutico, para efectuar as transferências e os pagamentos. Garante-se assim um serviço mais personalizado, disse ao jornal um responsável pelos serviços Interbancários – o SIBS. Há já 35 mil pontos prontos a receber o novo serviço. Consta que os terminais de pagamentos já existentes não terão de sofrer quaisquer alterações ou reajustes. Consta também, que 4 mil estabelecimentos já aderiram à ideia. A notícia não diz se foram mais mercearias, pastelarias, ou farmácias a aderir… o que diz é que quem o fizer – quem aderir a esta novidade – será recompensado por isso. Ou seja – diz o jornal que – desta forma, “os comerciantes que venham a fornecer o novo serviço de pagamentos poderão vir a receber por isso”.

Talvez assim se torne mais fácil convencer a Ordem dos Farmacêuticos a condescender e permitir que os profissionais de farmácia passem a ter de desdobrar-se entre duas receitas da caixa e um recibo do gás.

Mais difícil será talvez explicar aos bancos porque é que não podem vender aspirinas, nem pomadas para os bicos de papagaio…