sexta-feira, 21 de novembro de 2008

olh'ó cão !!!

O alerta em mais que um jornal, hoje.

A Policia Judiciária anda à procura de um homem entre os 25 e os 30 anos, suspeito de ter praticado um crime grave. As fotografias que os jornais publicam mostram-no sempre no metropolitano. Ora dentro de uma carruagem, ora passeando pelo cais de embarque. Nalguns jornais descreve-se a forma como se vestia à altura dos factos, que a notícia garante desconhecer quais tenham sido, mas garante também que foi coisa grave. O alerta da polícia terá chegado às redacções com carácter de urgência. Por isso, o 24Horas, por exemplo, publica a notícia discretamente, numa coluna perdida a um canto da página 15…

O DN empurra-a para a página 27, entre o incêndio que destruiu uma tipografia em Oliveira de Azeméis e o octogenário que se aleijou, ao cair num regato, na rua do Grijó, no Porto. Faltava um quarto para as 3 da tarde, diz o DN.

No Público e JN não o consegui ver, ao tal procurado pela Judiciária com carácter de urgência…

No Correio da Manhã ele lá está de volta…a fechar a edição. Na penúltima página, discreto entre cartoons, anedotas e os resultados da lotaria popular. Ele lá está em fotografia tosca de câmara de vigilância. Uma fotografia onde aparece segurando-se nos varões das cadeiras e olhando directamente para a câmara, dentro de uma carruagem do metropolitano de Lisboa. A Judiciária procura-o com urgência e acusa-o de crime grave e pede a ajuda dos jornais e da população…

Os jornais, já vimos que não lhe deram destaque de primeira página… talvez o alarme não o justificasse. Pode dar-se também o caso de não se querer alarmar os leitores, sem necessidade. Não lhe dão também o privilégio da última página… a urgência da última hora… em vez disso, uns ignoraram o apelo, outros publicaram-no lá pelo miolo do jornal, onde corre o risco de passar meio despercebido. O Correio da Manhã puxa-o para a página de fecho, ao lado das anedotas… sim que a última mesmo...

A de última hora, onde se publicam aquelas notícias que já não houve tempo para enquadrar de forma mais digna, ou especial, mas que, pela sua real importância não podiam esperar para ser publicadas no dia seguinte… aí, o Correio da Manhã de hoje publica, entre outras, o sorteio da lotaria popular, para quem não o viu na página anterior e esta história – ah sim!, esta história…que poderia abrir campo a um interessante e profundo debate.

Diz o título, que foi em Peniche que um cão atacou um homem. Um homem de meia-idade que foi mordido ontem por um cão de grande porte na via pública, em Peniche e transportado ao hospital com ferimentos na mão e num braço. O caso terá sido mesmo sério, já que teve de ser operado e diz o jornal que pode mesmo vir a perder um dedo, por causa de tudo o que lhe aconteceu.

O debate que falta é o de esclarecer, de uma vez por todas, a partir de que preciso e exacto momento é que, o cão que morde o homem, passa a ser notícia?...

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

mais de mil mamutes velam pela tua segurança, pá.

Há perguntas que se fazem, que, como se costuma dizer… sinceramente.

Ora a pergunta que se faz hoje na capa do Público é se podemos trazer os mamutes de volta à terra e ao nosso saudável convívio…

Poder… poderia… só que dá muito trabalho.

O que se passa é que se acaba de conseguir – feito notável – determinar a imensa sequência genética do mamute, parente pré-histórico do elefante, extinto – o mamute, claro – vai para uns 10 mil anos.

Dois investigadores da Universidade da Pensilvânia conseguiram reconstituir a – diz que – gigantesca molécula de ADN contida no núcleo das células do mamute. É o primeiro genoma de um animal de uma espécie extinta.

Prodígios da técnica. Até agora era uma tarefa quase impossível… ler os 4 mil milhões de letras da sequência genética do ADN do núcleo celular, onde se encontra a esmagadora maioria dos genes – que, no mamute – explica o Público – são 20 mil, ou perto disso. Os investigadores da Pensilvânia dizem que por enquanto é só um esboço. Um rascunho incompleto.

Um esboço conseguido a partir de uma bola de pelo pré histórica, como lhe chama o jornal. E foi o que aconteceu. Os cientistas trabalharam a partir de pelo de duas múmias de mamutes. Uma com 20 mil anos, a outra com 60 mil anos, ambas resgatadas na Sibéria, para onde aliás, reza a História e garantem os estudos científicos, os mamutes se terão deslocado, em busca de melhores condições de vida. Eles, que apareceram na terra há milhão e meio de anos e que por cá ficaram até há coisa de 10 mil anos, quando a espécie acabou por extinguir por completo…

Uma coisa parece certa. Desta vez a culpa não foi do homem. Já que há 10 mil anos não havia presença humana na Sibéria. Outra conclusão que se torna evidente a partir de agora é que os actuais elefantes são mais parecidos com os extintos mamutes do que se pensava. A grande vitória, para já e que merece o destaque e as honras da revista Nature é concluir-se que se consegue sim senhor sequenciar o ADN de espécies extintas. E por isso mesmo os cientistas preparam já a próxima etapa… sequenciar na totalidade o genoma do homem de Neandertal, extinto há 30 mil anos.

E a tal pergunta. A partir de agora, então, será possível fazer um mamute a partir desse ADN… Os cientistas respondem que possível será… mas que primeiro seria preciso definir quais os genes, sintetizar os cromossomas a partir das sequências definidas, colocar esses cromossomas dentro de um invólucro nuclear adequado, transferir esse núcleo para um ovócito compatível – em principio o de uma elefanta… o que também parece que não haveria de ser fácil… e transferir o embrião para um útero. Haveria ainda que criar vários indivíduos e introduzir neles algumas variações genéticas, para não gerar apenas clones, mas criaturas com individualidade própria. Por último, há que perceber que, mesmo assim, não se haveria de poder falar com propriedade de mamutes totalmente autênticos, ou pelo menos da mesma estirpe dos que se extinguiram há 10 mil anos… estes seriam quanto muito uns híbridos… ali entre o mamute pré histórico e o elefante contemporâneo…

Portanto, poder… podia-se. O problema … e este sim é que é o último… o último mas não o menos decisivo… o problema seria que, largá-los na natureza assim sem mais, seria arriscado… colocá-los em habitats naturais adequados ao efeito… dizem que iria gerar um pequeno caos ecológico.

Ora portanto e posto isto, voltando à pergunta… será possível ressuscitá-los um dia?...Podemos trazer de volta os mamutes ao nosso convívio?...

Sim, nós podemos. Mais alguma pergunta?...



BPP – o banco privado português foi o primeiro a usar o apoio do Estado… Puxa o Público para a capa, que o banco pediu um aval a financiamento de 750 milhões de euros para repor a liquidez…

O JN diz que a Câmara de Lisboa vai vender uns terrenos, avaliados em 10 milhões de euros, para sanar o passivo da EPUL. Um défice que ultrapassa esse valor e que se deve a erros graves de contabilidade…

O Parlamento da Madeira, escreve o Diário de Notícias, vai custar 17 milhões de euros, o ano que vem…

Os consumidores domésticos de electricidade, em Portugal, escreve ainda o DN, desperdiçam em energia, por ano, o equivalente a 174 milhões de euros…

O Correio da Manhã diz que o aumento exponencial do crédito mal parado compromete e penaliza os bancos portugueses e que as dívidas podem subir até aos 8 mil milhões de euros…

Na capa do Diário Económico anuncia-se que o Estado português tem 262 milhões de euros para promover funcionários. Está no Orçamento para o ano que vem… 262 milhões para progressões na carreira por bom desempenho e novas contratações de funcionários públicos…

A Comissão Europeia, essa acaba de anunciar que o chamado Plano de Estímulo terá fundos de 130 mil milhões de euros e será apresentado a 26 deste mês…

E as Nações Unidas precisam de 5 mil milhões de euros. Não para salvar nenhum banco da falência, não para promover ou contratar novos funcionários públicos, não para remendar buracos financeiros abertos por má gestão, ou más práticas…

Não. A ONU precisa de 5 mil milhões de euros para garantir a ajuda humanitária a 30 milhões de pessoas em 31 países… O apelo foi ontem lançado em Genebra.



Tem tudo a ver. Tem tudo a ver com a realização do Simpósio sobre Privacidade, Identificação e Vigilância. O Simpósio Internacional que hoje começa no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. … A Sociedade Vigilante: Privacidade, Identificação e Vigilância são as matérias em apreço, hoje e amanhã, neste encontro.

O jornal Público dá a notícia e começa a prosa com este alerta: que não, que não estamos de facto numa sociedade orwellliana, sob o olho omnividente de um qualquer Big Brother, mas que, é preciso sim, estar atento às letras pequenas dos contratos de adesão a cartões de pontos de supermercados e gasolineiras, por exemplo, para impedir que dados pessoais comecem a circular em bases de dados e daí, sabe-se lá para onde…

O jornal ouviu a organizadora do Simpósio, Catarina Fróis. A investigadora desdramatiza um pouco a situação e concorda que, apesar de tudo, Portugal não se compara ainda a uma Inglaterra, onde os cidadãos chegam a ser apanhados, em média umas 300 vezes por dia, por câmaras de vídeo vigilância. O que não quer dizer – faz ela questão em nos lembrar – que Portugal não esteja a acompanhar esta tendência mundial e que por isso, é bom que os portugueses tomem consciência do que está aqui em causa, nos novos sistemas e processos de vigilância. Catarina Fróis admite que Portugal é até um país com leis bastante protectoras da privacidade dos cidadãos, mas …

E nestas coisas, então em Portugal!... Há sempre um mas. Diz Catarina Fróis que, por exemplo, o Cartão do Cidadão... È verdade que sim, que há-de ser muito mais prático ter apenas um cartão, em vez de uns 4 ou 5… Um cartão único que identifique o cidadão nas finanças, na segurança social, no registo criminal… por aí, sendo que – como Catarina Fróis sublinha, os dados não sendo cruzáveis, por exemplo entre as finanças e a saúde –é o exemplo dado, nada garante que no futuro isso não possa vir a acontecer… e isso é que a investigadora Catarina Fróis teme, como eventual invasão de privacidade… Por outro lado – e isto já não é Catarina Fróis a falar… por outro lado, se certos organismos públicos portugueses cruzassem um bocadinho mais informação entre si, poupariam muito trabalho ao cidadão, poupariam muita burocracia modorrenta e ineficaz …

Voltemos a Catarina Fróis… no caso, aos chips para as matrículas dos automóveis. A ideia é localizar carros roubados, mas há quem não queira que se saiba por onde andou, com o carro, mesmo o carro próprio. Há quem não goste que se saiba. Não por nada em especial, só não quer que se saiba…

Quanto às câmaras de vigilância, há quem diga que não servem para nada, se a ideia é a prevenção do crime; há também quem diga que tranquiliza as pessoas e as faz sentir mais seguras, sabendo que estão a ser vigiadas por uma câmara de vídeo…

Pois, quanto às de vídeo, não sei, nem se o cidadão português se sente mais incomodado, ou protegido… agora as outras as de televisão... Essas não parecem assustar nem ofender a privacidade de ninguém. É conferir as coisas que se vão dizendo e ouvindo e confessando e revelando de forma desbragada, às vezes obscena, nas televisões de grande audiência nacional. E tudo, o mais das vezes, a troco de uns patacos, ou 15 minutos de fama.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

'tá tudo bêbado, arre porra.

Comecemos então pelo fim.

E na última página do 24 Horas de hoje anuncia-se, em letra gorda, que há um comerciante em Vinhais de Trás-os-Montes, que quer acabar com a ASAE. Diz que já foi mesmo pedida a inconstitucionalidade do organismo.

Ora os factos… os factos remontam a Janeiro de 2007, quando os inspectores da Segurança Alimentar e Económica visitaram este supermercado e verificaram que havia irregularidades na congelação de alguns alimentos. Na altura, foi passada a contra ordenação. O comerciante foi constituído arguido em processo-crime e detido. O caso seguiu para tribunal e foi justamente o advogado deste comerciante quem teve a ideia. A ideia de pedir a inconstitucionalidade da ASAE. Baseia-se, o advogado, no facto de organismos como a PSP, a GNR, ou a polícia judiciária terem sido criados por lei aprovada em sede parlamentar. E que, por isso, para agir como uma vulgar polícia, também a ASAE haveria de ter seguido um percurso semelhante, que lhe validasse a autoridade. O que não aconteceu. A ASAE foi criada por decreto do Governo e dispensou aprovação no Parlamento.

O advogado deste comerciante transmontano acha que o argumento tem base que chegue para vencer a causa, na barra do tribunal de Vinhais. O que, a acontecer, obrigaria eventualmente a suspender de imediato toda a acção da ASAE, até que a situação legal fosse regularizada.

E até lá?!... Ou, aliás e antes disso… os tais alimentos mal congelados?... Quem responde por eles?... Ou não é preciso?! E não é preciso porque, afinal e em bom rigor, estava tudo em ordem e não havia lugar, nem pretexto para contra-ordenações. Estava tudo em ordem e em condições de ser vendido, e consumido sem risco para a saúde de ninguém… porque, afinal, foi só a má vontade, a má fé, a embirração, ou, se quisermos, um certo excesso de zelo, que levou a inspecção a processar o dono deste supermercado de Vinhais… e, se foi esse o caso, esses argumentos – o da má fé, da embirração, do erro de avaliação da ASAE – não seriam por si só suficientes para sustentar uma defesa eficaz, sem ter, este advogado minucioso, de levantar lebres destas?...

E no Diário de Notícias o alarme é que “a SLN precisa já de 150 milhões para sobreviver.”

Acreditamos que sim, que contas destas, alguém creditado para isso as deve ter já feito, com prova dos nove e tudo. O que fica por esclarecer é: o que perderia realmente o país e a economia nacional se a Sociedade Lusa de Negócios acabasse por sucumbir à crise…

E na página ao lado, diz o DN que mais de 10 gestores de topo apresentaram a demissão. Administradores de topo de várias empresas do grupo SLN. Diz, o DN, que “a recente dedicação da equipa de Miguel Cadilhe à Sociedade Lusa de Negócios enfrenta essa dificuldade adicional… é que desde que o BPN foi nacionalizado, mais de 10 administradores de topo apresentaram o pedido de demissão… (Rodeemos aqui a metáfora dos ratinhos e dos navios que se afundam… Vamos a números.) “…O maior número de saídas ter-se-á registado na área da saúde, mas as empresas do ramo imobiliário também já registaram algumas baixas. Segundo fonte da SLN, alguns administradores ficaram descontentes com a forma como a vida do grupo foi conduzida nos últimos meses, com uma atenção especial para a situação do BPN.”

E assim mesmo é que se poda! Se estes administradores estavam descontentes com a forma como o grupo a que pertencem foi administrado nos últimos meses, só lhes restava uma saída: demitir a administração.

O que, aparentemente e de forma um pouco enviesada, terão acabado por fazer, ou estão fazendo.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

todos de frente, todos de lado.

Portugal absteve-se, por ver tantas vantagens como inconvenientes na decisão, mas mesmo assim, e apesar da maioria não qualificada, a proposta acabou por ser aprovada. ontem em Bruxelas. E chega de nariz de cera. Vamos ao que importa.

A partir de agora, a fruta e leguminosas deixam de novo de ter de respeitar as regras de normalização impostas pela Comissão Europeia. Foi a própria Comissão quem propôs a alteração, aprovada por 127 votos contra 206 e duas abstenções, entre as quais a portuguesa, já vimos. Foi mais gente a votar contra, mas não chegou para a tal maioria qualificada que chumbasse a proposta.

A proposta, justifica-a a Comissão Europeia com a necessidade de eliminar alguma burocracia e evitar desperdícios. E ele, o desperdício, chegava aos 20% da produção. Em Portugal por exemplo – e este é um aparte - o Banco Alimentar contra a Fome estava impedido de receber fruta e produtos não normalizados – os chamados produtos com defeito. Isto porque, segundo Isabel Jonet, do banco alimentar, o ministério português da agricultura se atrasou a enviar para Bruxelas a informação sobre a entrega, em Bancos Alimentares, ou organizações semelhantes, de produtos que não respeitam as normas comunitárias de calibragem. A burocracia de que se falava… E por causa disso, é ainda Isabel Jonet em declarações ao jornal Público… por causa disso, desde Janeiro que os habituais 85 milhões de kilos de géneros entregues, por ano, no Banco, pelos produtores, sofreram um corte drástico. Diz que já em Outubro, a Federação dos Bancos Alimentares pediu urgência na resolução do problema, mas sem resposta, pelo menos até hoje. Hoje, o que acontece é que esses produtos e no caso concreto da fruta, ou são enterrados, ou vendidos para Espanha, para fazer refrigerantes.

Mas o protesto alarga-se por toda a Europa, agora contra esta medida. Os agricultores europeus estão contra o fim da normalização da calibragem, porque acham: primeiro, que ela não vai fazer baixar o preço da fruta e dos legumes, por exemplo… A comissária europeia da agricultura acha que antes pelo contrário. Um porta-voz da Comissão Europeia diz, por seu lado, que assim se acabam com cem mil páginas de legislação, prevalecendo a lógica da regulação mínima. Quanto aos agricultores, acham também e ainda segundo dizem, que o que vai acontecer é abrirem-se as portas aos fornecedores de outros países.

Em Portugal, a CAP também torce o nariz ao fim da calibragem. Diz que assim o consumidor deixa de ter pontos de referência para comparar preços.

Já p’ra não falar no dinheiro gasto nas máquinas de calibragem, que foram forçados a comprar entretanto…

E, entretanto também, um dirigente da Associação Nacional de Produtores de Pêra Rocha diz que o problema é a qualidade. Que a partir de agora, não é que ela seja toda má, o que acontece é que deixa de haver a garantia de que a fruta seja boa. Diz que Bruxelas o que quer é ajudar o mundo rural de países terceiros, à custa do mundo rural europeu. Estes são os argumentos soltos e mais sonantes.

A questão que fica por responder é só esta. Porque é que não se pode garantir a qualidade dos produtos?!... Só porque Bruxelas não o exige!? Isso não é verdade, parece-me... O que está em causa é só a calibragem. A normalização dos tamanhos. Ou se quisermos, uma versão horto frutícola do Todos Diferentes Todos Iguais e, no caso, todos a saber à mesma coisa quase nenhuma.

E… esse susto do mercado europeu vir a ser invadido de produtos não normalizados vindos dos tais países terceiros?... Faria assim tão grande diferença, se essa invasão fosse protagonizada, por exemplo, por um exército de tangerinas, ou maçãs reineta, desde que viessem todas alinhadinhas, como soldadinhos de chumbo, numa caixa engalanada?...

e no princípio, era o verbo...

E no princípio era o verbo.

Mas, isso era no princípio.

Hoje, uma edição falsa do New York Times anunciando, por exemplo o fim da guerra, não só não chegou para acabar de facto com ela, como lançou a indignação nalguns meios, a começar pela própria direcção do New York Times, que não achou graça nenhuma à ideia.

Mas a verdade é que a cópia quase perfeita do jornal, distribuída ontem de manhã em vários pontos de Nova Iorque e Washington, enganou muito boa gente. Isto apesar da surpresa de algumas das notícias publicadas. Anunciava-se por exemplo o fim da guerra no Iraque e o regresso das tropas, o livre acesso à universidade e a criação de um sistema de saúde universal. Enfim, só boas notícias. A ideia geral vinha logo na tituleira, onde se glosava o lema do próprio jornal nesta frase: Todas as notícias que nós esperamos um dia vir a publicar. Enfim, mais ou menos isto em tradução livre.

Pois acontece que estas liberdades desagradaram sobremaneira à direcção do jornal – ainda mais que alguns dos colaboradores desta edição mistificadora eram jornalistas do próprio New York Times... E desagradaram tanto, que a direcção do jornal anda agora a ver se descobre os autores e os responsáveis por esta edição. O jornal Público já os descobriu. O Guardian também e até já falou com eles… Diz que foram os auto denominados Yes Men, um grupo da esquerda norte americana. Mas, garantem que para além da ideia, só ajudaram na distribuição dos mais de um milhão de exemplares impressos. Toda a edição, 14 páginas cada exemplar, foi financiada por pequenos investidores e elaborada por voluntários. Na primeira página remetia-se toda essa mirífica actualidade para um certo 4 de Julho – dia nacional da América… no caso, o 4 de Julho do ano que vem. Uma das colaboradoras desta edição pirata, chamemos-lhe se não vos choca… disse que. depois de 8 anos de Inferno – a alusão dispensa traduções – depois de 8 anos de Inferno, chegou a hora de começar a imaginar o céu e fazer mais pressão que nunca para conseguir a mudança desejada pela nação americana e pelo mundo

Pois, mas não! Porque a verdade, a realidade, essa está logo aqui na página ao lado…

No estado da Louisiana, o Ku Klux Klan matou uma mulher. que queria abandonar a organização. Uma neófita. Mulher de 44 anos. Morta a tiro, domingo passado, num perdido pântano do delta do Mississipi, onde decorriam as cerimónias de iniciação. Consta que a meio do ritual ela terá mostrado vontade de desistir e ir-se embora. Vontade de abandonar o grupo. Ter-se-á seguido uma discussão entre ela e o chefe da seita. Discussão que se resolveu abatendo a tiro de pistola a refractária.

Os responsáveis pelo crime, escreve o Público, acabaram por ser descobertos, quando perguntavam, numa loja, como limpar da roupa os vestígios de sangue, que lhes tinham ficado. Do resto, no local do crime, todos os eventuais vestígios já tinham sido apagados e o corpo escondido algures. Enfim, o sítio é mesmo recolhido e só lá se consegue chegar de barco. E foi aí que, segundo o relato, esta mulher se submeteu a rapar o cabelo todo, como, ao que parece, ordena o ritual de iniciação e se entregou aos ritos iniciáticos da Ku Klux Klan. Diz o sheriffe de Tammany, no Lousiana, que os rituais do Ku Klux Klan se resumem no essencial em acender tochas e correr pelos bosques.

No essencial talvez, no acessório não me cheira que seja essa a fama que os tornou mais populares…

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

salvem o lince da malcata, porra!

Deixem então que vo-la apresente: A Toxina Botulínica tipo A, que é um complexo proteico purificado, de origem biológica, obtido a partir da bactéria Clostridium Botulinum. Que, por sua vez, é uma bactéria anaeróbia, que em condições apropriadas à sua reprodução, (10ºC, sem oxigénio e certo nível de acidez) cresce e produz sete sorotipos diferentes de toxina… Dentre eles, o sorotipo A é o reconhecido cientificamente como o mais potente e o que proporciona maior duração de efeito terapêutico.

Ora bem, apresentações feitas, falta dizer que em Israel lhe chamam Prosigne – marca comercial… na Suécia Dysport e nos Estados Unidos, BOTOX. E deste já toda a gente decerto ouviu falar.

Agora sim, vamos á actualidade. Vem do Brasil, Rio de Janeiro, e diz que está em marcha o programa de fornecer, de forma gratuita, esse tipo de tratamento, ou intervenção micro cirúrgica, se assim se pode dizer, aos mais pobres da cidade, ou do Estado, ou por aí… O tratamento com BOTOX é um bocadito caro e considerado mesmo um pequeno luxo. O Diário de Notícias, que publica a história, lembra mesmo que é um tratamento, uma prática, se quisermos, que nos remete imediatamente para o universo glamoroso das estrelas de Hollywood, que se recusam a envelhecer, pelo menos a olhos vistos. No Brasil, consta que o próprio presidente Lula da Silva é adepto do BOTOX, mas isso, para o caso, não conta nada. O que se conta é que, desde segunda feira passada e até diz 19, há umas 200 senhas disponíveis, na Sociedade Brasileira de Medicina Estética, para quem se queira submeter gratuitamente a essa intervenção. Para quem quiser arriscar, diz a notícia. E a palavra “arriscar”, aqui, deixa uma frestazinha, por onde já começa a entrar uma estranha corrente de ar. Mas, adiante. É que há, e primeiro que tudo, que certificar-se o real estado de pobreza do candidato. Estado de pobreza mesmo, já que o rendimento máximo permitido é de 500 reais por mês – o que em euros dá uns 180 euros por mês. Essa é condição sine qua non. O candidato tem de fazer prova inequívoca de pobreza. Do resto, para quem achar que o BOTOX não é coisa de que precise muito, pode escolher outro tipo de tratamento, ao mesmo custo zero. Por exemplo, tratamento com laser para a acne, depilação definitiva, ou peelings químicos, ou ainda tratamentos contra as varizes.

A notícia explica entretanto que, este programa, vai permitir aos estudantes de medicina praticarem e acumularem experiência, nos diversos actos clínicos, enquanto permite aos pobres receberem um tratamento de luxo, só acessível a gente de posses.

Para experiências, portanto. Para os jovens médicos fazerem experiências e ganharem prática. É o que está aqui escrito.

As intervenções, conclui o DN, serão supervisionadas por médicos professores responsáveis pelos alunos. Diz-se ainda que, desde 1988, umas 10 mil pessoas terão já sido objecto de intervenções semelhantes, eventualmente nesta circunstância de gratuitidade… aqui a notícia não é muito clara. Ora o que parece claro é que, para fazer de cobaia a médicos em estágio, uma pessoa com rendimentos um pouco superiores, ou mesmo até, um rendimento francamente folgado, servia perfeitamente.

Aliás, se de rugas de expressão se trata… (e, o rir, como se sabe, vai vincando com o tempo, as suas rugas de expressão…) é bem possível, que os mais afortunados sejam também e ao mesmo tempo os mais enrugados, já que têm mais razões para isso. Para rir. Corres-lhes bem a vida.

Quanto aos outros, a estes pobres que o Rio de Janeiro quer que continuem lindos… pois podem continuar sequinhos de corpo, talvez até, de vez em quando com um insolente ratinho a sambar-lhes pela barriga vazia, mas de cara!... Ah bom, de cara, há-de ser uma alegria! Há-de poder dizer-se que: olha, vêem-se-t’as costelas, mas… estás com boa cara, vês!?...

terça-feira, 11 de novembro de 2008

malta com mau vinho

E como é que alguém pode ter a coragem de querer acabar com as horas felizes de uma pessoa?!...

À primeira, parece coisa de uma crueldade extrema. Mas vamos à notícia. Diz o de Notícias, o Diário de Notícias, que a comissão de assuntos internos do parlamento britânico apelou ontem ao fim das chamadas, em inglês – Happy hours, o que, em português corrente, se traduz naquelas horitas em que os bares baixam o preço das bebidas alcoólicas. O efeito é o esperado. Bebe-se francamente mais, durante essas horas. O parlamento britânico acha mesmo que essa operação de marketing, aliada às promoções, que muitos supermercados fazem às bebidas alcoólicas, são as culpadas pelo consumo excessivo de álcool no país.

Em declarações à BBC, o presidente da comissão de assuntos internos disse que as Happy Hours tornam as pessoas infelizes.

E até aqui íamos indo. O consumo excessivo de álcool que é coisa que, como toda a gente sabe, pode bem configurar um problema de saúde pública, o que só por si, já seria preocupação suficiente… Fala-se depois em infelicidade. As happy hours tornam as pessoas infelizes. Uma conclusão paradoxal, mas perfeitamente admissível. Em verdade, por vezes, não há coisa mais triste que ver um bêbado feliz… mas adiante. E adiante, que ao que parece não é esse o mal maior, para esta comissão de assuntos internos. Voltemos às declarações do presidente da referida comissão: diz que a venda de álcool a preços reduzidos encoraja o consumo excessivo de álcool – até aqui já tínhamos chegado, mas continua… que esse facto obriga a polícia a mobilizar mais recursos para fazer face à violência. E se já repararam saltamos de súbito para um outro campo. O da violência, dos distúrbios na praça pública, ou nos bares e pubs ingleses, ou até mesmo, quem sabe, no lar doce lar, ou, como é público e notório, nalguns acontecimentos desportivos de grande afluência e popularidade… o futebol! Para que havemos de andar aqui, beating about the bush, como eles dizem!?...

Pois, é a violência e os meios que a polícia tem de mobilizar para a combater, o que está aqui em causa.

Não tanto a saúde pública. Não tanto o consumo excessivo de álcool ir queimando algumas células e outros recursos naturais da espécie humana, não tanto esse excesso revelar alguma insatisfação, algum mal-estar, ou desespero, ou falta de assunto em geral. Nada disso. O problema é que o consumo excessivo de álcool – pelo menos em Inglaterra – leva à violência, de tal forma que é preciso chamar a polícia. O problema, parece ser, afinal, que em Inglaterra, há gente, demasiada gente, que mal bebe um copo a mais, se revela uma autêntica besta.

E isso, de facto, é uma grande infelicidade.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

obviamente, demito-me...

As universidades têm maus gestores, Diz Mariano Gago. Escreve o Público. Os títulos, nos outros jornais, não andam muito longe disto. Diz-se depois que, apesar disso e mesmo debaixo de críticas, o ministro do Ensino Superior mantém a confiança na gestão autónoma das instituições. O mesmo será dizer, que para Mariano Gago, o defeito não será do sistema, mas antes de quem o gere. O que, convenhamos, torna tudo muito mais fácil. Fosse do sistema, a culpa do que vai mal no Ensino Superior em Portugal e aí sim, a coisa seria bem mais complicada. Não só porque, aquilo a que se pode chamar "o sistema" remete-nos para uma realidade muito mais imponente e, com certeza também, de muito mais difícil conserto, como também e ao mesmo tempo nos remete para o campo do quase impalpável, do intangível… o sistema. Mas não. Mariano Gago não tem dúvidas e admite que há maus gestores nas universidades públicas portuguesas, sendo que esse facto não chega para beliscar a confiança que o ministro continua a ter no modelo de gestão autónoma das Universidades. Ouçamos o ministro: “Tenho confiança na universidade e na sua capacidade mesmo quando ela tem dificuldades de gestão. Esses dirigentes…” – os maus gestores – “…eles próprios corrigirão essa atitude, ou serão substituídos.” (por quem, como, onde e quando …) Deixemos falar o ministro: “quando a lei é violada, o ministério intervém imediatamente sobre as universidades, mas garante a sua autonomia. Compete às universidades encontrar as melhores formas de se gerir e compete ao ministério ajudar as universidades a encontrar as melhores formas de se gerirem…” Voltamos ao mesmo: como, quem, onde, quando? … Até aqui só percebemos que, segundo ao ministro, compete às universidades encontrar as melhores formas de se gerirem… espera portanto, e isso já vimos, que sejam os mesmos maus gestores a dar-se conta da própria incompetência e corrigir a mão, ou até, em último caso, apresentar a própria demissão, por manifesta incapacidade de exercer o cargo que desempenham.

Ora tudo isto foi dito e posto à consideração dos presentes, durante o encontro de Mariano Gago com dirigentes associativos do Ensino Superior, que decorreu ontem em Almada. E durante esse encontro, a questão que mais pareceu preocupar os estudantes foi o financiamento. O financiamento do Ensino Superior. Ainda a semana passada, 15 ex reitores faziam chegar a carta a Belém e S. Bento. Alertavam Sócrates e Cavaco para a falta de dinheiros, nas instituições de ensino superior. E ontem, Mariano Gago respondeu sem medo. Uma resposta clara, decisiva, arrasadora. Abram-se as aspas: “O que é muito importante verificar é que, mesmo num período de dificuldades orçamentais no nosso país, as universidades e politécnicos no seu conjunto conseguiram ao longo destes 3 últimos anos que a totalidade das receitas cobradas do orçamento de Estado fossem em linha com o que acontece com os restantes países da OCDE.”

Ora a questão era a falta de dinheiro, de financiamento para o satisfatório funcionamento das Universidades Públicas portuguesas e o jornal Público transcreve o que terá sido a resposta do ministro a esta questão e ela foi que : “O que é muito importante verificar é que, mesmo num período de dificuldades orçamentais no nosso país, as universidades e politécnicos no seu conjunto conseguiram ao longo destes 3 últimos anos que a totalidade das receitas cobradas do orçamento de Estado fossem em linha com o que acontece com os restantes países da OCDE.”

Se a pergunta fosse a que horas é a última camioneta para a costa de Caparica… Que resposta daria o ministro?...

Bruxelas quer ultrapassar o impasse provocado pelo veto irlandês.

É o ante-título da notícia, que hoje ocupa uma página inteira na edição do Público. Em letra maior explica-se que a União Europeia pressiona Dublin a mudar a Constituição para viabilizar o Tratado de Lisboa e, logo a seguir, que várias forças, a começar pela presidência francesa, querem que a Irlanda transforme o referendo ao texto europeu, num referendo à sua – dela Irlanda – lei fundamental.

Na legenda à fotografia, que ilustra a matéria, escreve-se que alguns eurodeputados pediram em Junho respeito pelo não irlandês, sufragado em refendo nacional.

Na fotografia e de costas para nós, um homem está sentado no que poderia bem ser uma bancada parlamentar. Ao lado dele, sobre a bancada, numa folha A4, em letra bem grande exige-se o respeito pelo veto irlandês. Respect the Irish no – é o que se lê. Nas costas da camisola que este homem veste – camisola verde, as cores da Irlanda, também o chapéu que traz na cabeça, é alegremente decorado com pequenos cornichos verdes e pretos em toda a volta… Nas costas da camisola pode ler-se que 26 Estados membros da União viram negada a hipótese de um referendo ao Tratado de Lisboa.

O texto da notícia dá depois conta dos pormenores … de como Brian Cowen (o 1º ministro) está sob forte pressão, sobretudo por parte da presidência francesa, para que desbloqueie o presente impasse. De preferência ainda antes… bem antes das eleições europeias de Junho do ano que vem. Bruxelas quer uma resposta favorável da Irlanda já em Dezembro, na cimeira de líderes dos 27.

E – continua ainda o jornal – esse objectivo, esse calendário, segundo peritos comunitários, poderia ser cumprido se Dublin optasse por referendar a Constituição nacional alterada com as áreas em que pretende preservar a soberania nacional, em vez do tratado, que poderia assim ser ratificado pelo parlamento irlandês.

Claro que sobra sempre a possibilidade de – a fazer-se o tal referendo à constituição - o povo irlandês se pronunciar contra as desejadas , por Bruxelas, alterações à lei fundamental do Estado – Poderia sempre acontecer e , acontecendo, remeter-nos de novo para o mesmo sítio onde estamos neste momento.

Poderia também Bruxelas, perante tão ingrata e desagradável conclusão, propor então a Dublin a grande solução, ou a solução final, se a expressão vos não ofende. Falo da máxima brechtiana… Porque não demitir o povo e eleger um outro?

A verdade é que, dê-se-lhe as voltas que se quiser, agora ninguém pode dizer que não sabia. A verdade é essa e não há volta a dar. Já que lhe perguntaram, o povo irlandês disse Não, ao Tratado de Lisboa. Podem aprová-lo com os votos que quiserem, ou à revelia de toda a gente, mas a verdade é que, o povo irlandês não quer o Tratado de Lisboa.

Vamos partir, entretanto, do princípio que o povo irlandês sabe do que realmente trata, o Tratado. Mas isso já seria outra conversa que não cabe aqui.

E aqui, pode ser a crise económica a afectar o mercado publicitário nos jornais portugueses... Quer dizer, pode ser que vá faltando o dinheiro aos empresários para investir em publicidade. A verdade é que, o que aqui nos trás desta vez é o pequeno anúncio, que o DN publica hoje, na página vizinha do lado da de economia.

Mas não na de economia, ressalve-se já. É na página dedicada à ciência que o DN publica, na esquerda baixa, a fotografia que anuncia e revela… o Infinito.

Parece ser só um pedaço de céu, mas a imagem – garante a legenda – mostra as galáxias mais longínquas que já se conseguiram ver da terra. Decerto que sim. Devem ser alguns desses pontos mais ou menos brilhantes que se vêem salpicando o fundo negro da fotografia. Mais ou menos, porque é assim mesmo. Uns brilham mais, outros menos. A legenda não explica, nem a fotografia assinala de forma especial, quais os pontos, que neste pedaço de céu, correspondem às tais galáxias. Será tudo o que a moldura da fotografia encerra? Aquela quantidade incontável de pontos luminosos? Ou só os mais brilhantes? Ou só os mais afastados, os mais pequeninos?...

Diz a legenda, que parece só um bocado de céu. Admitamos que sim. Também poderia ser um bocado de papel salpicado de tinta, que o efeito seria idêntico. Mas fiquemos por este pedaço de céu, onde o DN garante que se podem ver distintamente as galáxias mais longínquas da terra. O DN garante que sim, o que torna a fotografia muito mais imponente e desfaz todos os possíveis equívocos da fotografia ter sido tirada por um qualquer amador, da janela de casa, com uma pequena kodak descartável. O que em verdade, também poderia ter acontecido, com resultados muito semelhantes, pelo menos aos olhos de um leigo. Mas não. Aqui, diz o Diário de Notícias, estamos perante essa terrível imensidão do universo. Estamos na última fronteira. Estamos o mais longe que até hoje o olho humano conseguiu chegar, na exploração do espaço cósmico.

O DN diz que é o Infinito. Essa coisa preta salpicada de pontos brilhantes. O Infinito, portanto. Mesmo sem ir tão longe, fotografias destas servem sempre para nos lembrar, que não somos assim tão grandes quanto isso. Quer dizer, à escala do Universo somos até bastante pequenitos. Mas, por outro lado… pelo outro lado, por onde o Infinito também se abre e nos desafia… por esse lado, o do infinitamente pequeno, aí a coisa muda de figura, sem consequência de maior, mas muda.

Temos então que, se o DN publicasse uma fotografia de uma qualquer observação microscópica, conseguida por uma qualquer super lente… também aí se poderia falar de Infinito. E também a imagem haveria de ser majestosa e – se calhar – bem capaz de nos confundir e remeter para outros universos. E também ela, como esta, nos levar a reflectir sobre a nossa magnífica insignificância.

E também ela, como esta, levar-nos a concluir que, se o mercado da publicidade não estivesse em crise, em vez do Infinito, talvez o DN fechasse aquele cantinho que sobrou da página, com um anúncio a outra coisa qualquer… a esta empresa de limpezas, por exemplo, que garante rigor nos serviços e que aparece, no mesmo sítio precisamente, onde estava o Infinito, mas duas páginas à frente.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Ora vamos a contas

Ora vamos a contas.

Mais de 20 mil gestores podem vir a ser constituídos arguidos, por fuga ao Fisco.

Vem no DN, que a operação "Resgate Fiscal" já recuperou cerca de 114 milhões de euros, juros e coimas incluídos, em IVA e IRS cobrados e não entregues aos cofres do Estado.

Mais de 20 mil administradores e gerentes foram notificados e têm 30 dias para regularizar a situação. É uma última oportunidade, que o Fisco dá a estes faltosos. Ao todo, diz o jornal que há mais de 33 500 notificações, passadas pelas autoridades fiscais. Ao todo também, diz ainda o Diário de Notícias, há umas 50 mil empresas que, por costume, ficam com o IRS descontado pelos trabalhadores. Algumas são já reincidentes, na lista negra do Fisco. Mais de 10 mil empresas e empresários estão sob suspeita daquilo a que tecnicamente se chama: "abuso de confiança fiscal"… Isso, se encararmos o delito do ponto de vista do Fisco. Se considerarmos o ponto de vista do trabalhador, que descontou o respectivo e devido IRS e, no final das contas feitas, fica, por tabela que se seja, ele também em falta com as Finanças… a isso poderá dar-se outro nome. Fica ao critério de cada um dos eventuais lesados, a liberdade do baptismo. Podem usar linguagem menos técnica, se quiserem.

Adiante. Outras contas. Ainda à volta do caso BPN… o Diário de Notícias abre hoje duas páginas de destaque ao assunto.

Um dossier onde – e fiquemos só pela entrada… onde se fica a saber que o Estado português herdou uma dívida, que pode chegar aos 500 milhões de euros da SLN- Sociedade Lusa de Negócios. Diz o jornal, que as empresas do grupo tinham uma conta calada de dívidas ao Banco Português de Negócios, que as financiava, que anda entre os 300 e os 500 milhões de euros. Ao nacionalizar o BPN, o Estado fica com uma palavra a dizer sobre o futuro dessas empresas.

Entretanto e em relação ao desaire do Banco Português de Negócios… o Sindicato dos Bancários do Centro reclama que todos os responsáveis sejam sancionados de forma exemplar.

Ainda e em relação ao BPN… ontem mesmo, durante o debate parlamentar do Orçamento, Teixeira dos Santos terá garantido que esse era o único banco com problemas e que, para além do BPN, não há em Portugal mais nenhum banco em crise, ou como o ministro disse: com problemas de solvabilidade. Disse que, tudo o que se vai dizendo e ouvindo, mais não é que rumores que podem abalar o sistema financeiro – o que não é bom, já que esta é uma questão muito séria, como fez questão em sublinhar. E disse mais, para concluir… que, na altura em que garantiu ao país que não havia em Portugal instituições bancárias com problemas, o BPN tinha um plano estratégico de recuperação. Tudo tranquilo, portanto. O pior é que esse plano acabou por, mais tarde, se revelar irrealizável. Ou, como disse Teixeira dos Santos, “não concretizável”.

Foi só isso.

E…

Haverá ainda lugar no Inferno, para mais boas intenções?

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

PALHAÇADA

A ideia parece que seria instalar cabines de voto no hotel, para os hóspedes não terem de se deslocar e poderem exercer o seu direito, o seu dever cívico de votar nas presidenciais de ante ontem, nos Estados Unidos da América do Norte.

Acontece que, o hotel em questão é um resort naturista – chama-se “Caliente Resort” e fica na Florida. Enfim, o nome do resort , “Caliente Resort” é, só por si, já um pouco – digamos – curioso – no mínimo, mas isso , para o caso, pouco interessa. O que conta… o que se conta… É que a administração do hotel pediu aos responsáveis pelas eleições no condado de Pasco, na Florida, que se criasse uma cabine de voto, nas instalações do hotel, com a hipótese – ou, aliás, como escreve o Correio da Manhã – com a "opção" do voto nudista. Portanto, o que se pedia era, não só, a instalação de uma cabina especial de voto para os hóspedes do hotel, como ainda a possibilidade de eles irem votar todos nus.

Consta que o pedido foi recusado pelo supervisor das eleições em Pasco. Recusou, dizendo que se tratava de uma manobra publicitária, o que estava aqui em causa. Subentende-se que… uma campanha publicitária ao próprio hotel, não tanto ao naturismo… Subentende-se também, que esta terá sido a resposta simpática, ou se quisermos, como se diz, politicamente correcta para dar a volta à situação.

Ou se quisermos, uma outra forma de dizer… tenham mas é maneiras.

PALHAÇADA #2

É verdade que lhe fica bem, o véu. A Ghada El Tawil, egípcia, jornalista e pivô da televisão. Fica-lhe bem, emoldurando-lhe o rosto de pele fina e rosada, os olhos castanhos de um brilho quente e meigo. Na fotografia, ela sorri para nós, com a expressão de um contentamento que só ela sabe e entende. Nós, sabemos só que ela acaba de vencer a batalha, em nome de Alá.

O que se passa, conta o Diário de Notícias, é que Ghada El Tawil estava afastada há 6 anos dos ecrãs, por causa de um certo braço de ferro com a administração do canal 5 de Alexandria. Porque ela insistia em usar o véu islâmico, durante a apresentação do telejornal. O canal 5 é do Estado e o Estado egípcio é um Estado laico. Daí a proibição, por razões estéticas, obviamente e depois porque, sendo o Egípto um Estado laico, não se justifica que as mulheres andem sempre, religiosamente, de véu na cabeça.

Seja como for, a jovem jornalista recorreu para os tribunais e os tribunais acabaram por lhe dar razão e aceitar, que usasse o símbolo islâmico no local de trabalho. É aliás uma tendência que vem a acentuar-se nos últimos tempos no Egipto. Há cada vez mais mulheres, pelo menos nas pequenas cidades, a aderir à moda – enfim, chamar-lhe moda pode não andar muito longe da realidade, mas soa, se calhar, um pouco mal, neste contexto – chamemos-lhe então, "o "Uso" do véu islâmico, o “hijab”.

Quanto a Ghada El Tawil… regressou ao trabalho, mas de forma um pouco discreta. Para já, só apresenta debates, mas está decidida a recuperar o posto que ocupou durante 12 anos, o de apresentar os telejornais, em horário nobre. E porque, diz, quando cobre o cabelo, não perde a capacidade para ler as noticias … Admita-se que não. Também se pode admitir, que, se tirasse o véu quando trabalha, também isso não chegaria para lhe enfraquecer a fé, ou desrespeitar o altíssimo, mas isto é só uma hipótese académica, claro.

O Diário de Notícias remata a prosa com a pergunta: “que razões levam estas mulheres a tomar atitudes que o Governo laico do Cairo tem dificuldade em aceitar?” Dá depois a resposta, pela voz da nossa protagonista. Diz a jovem Ghada el Tawil que, à medida que os anos passavam, começou a sentir que queria fazer o que deus queria… Queira deus, que deus queira e lhe peça mais qualquer coisa de realmente interessante, do que apenas andar de cabeça tapada com um véu…

Fica-lhe bem, é verdade, mas como profissão de fé, parece curto.

Depois, só falta ressalvar essa atitude do Governo do Cairo. Apesar de laico, admitiu e aceitou o uso do véu consagrado pela fé islâmica. Assim mesmo. Magnânime, compassivo, generoso… como um deus.