quinta-feira, 24 de agosto de 2006
domingo, 20 de agosto de 2006
segunda-feira, 7 de agosto de 2006
ainda que mal pergunte...
PODE SER MUITO INTERESSANTE
SE EU OUVIR COM ATENÇÃO
‘TÉ PODE SER IMPORTANTE
PODE SER OU TALVEZ NÃO
E AINDA QUE MAL PERGUNTE
? O QUE É QUE ESTÁS A DIZER ?...
É QUE P’RA DIZER A VERDADE
AINDA NÃO PERCEBI
NEM SEQUER MEIA METADE
E GARANTO-TE EU A TI
NEM SEQUER É MÁ VONTADE
E AINDA QUE MAL PERGUNTE
NÃO SEI SE TU ESTÁS A VER …
QUE EU GOSTO DE OUVIR FALAR
QUEM BEM FALA E SABE E DIZ
COISAS QUE FAZEM PENSAR
E NOS TORNAM MAIS FELIZ
? MAS NÃO PODES ASSOAR
E AINDA QUE MAL PERGUNTE
ESSE PINGO DO NARIZ ?...
COMO QUERES TU QUE OUÇA
NÃO ME POSSO CONCENTRAR
NEM POR MAIS QUE EU ME TORÇA
ME CONTORÇA NÃO VAI DAR
COMO QUERES TU QUE OUÇA
E AINDA QUE MAL PERGUNTE
COM ESSA PENCA A PINGAR ?...
Ž/ 27/10/05
sexta-feira, 4 de agosto de 2006
"O Governo central não tem nada a ver com isso, nem pode fazer absolutamente nada" em relação à proibição que Alberto João Jardim decretou à administração fiscal da Madeira de poder revelar a lista de contribuintes faltosos no arquipélago...Quem o diz é José Luís Saldanha Sanches. O problema, afirma o fiscalista, "é que na prática a Madeira, como os Açores, acabam por ser na mesma subsidiados pelo Estado central através do Orçamento do Estado"... E considera que a nega de Jardim à divulgação daquela que já é conhecida como a lista negra dos devedores ao fisco é "uma questão política". Esta aparente impotência do Governo central de dar a conhecer os devedores madeirenses é reconhecida pelo Ministério das Finanças. Ao DN, fontes oficiais disseram: "Há base legal para isso, portanto, não se pode fazer nada."
quinta-feira, 3 de agosto de 2006
sexta-feira, 21 de julho de 2006

Entrou no café e disse: oh anhuca traz-me burriés!
Ele devia saber que muita gente não gosta de ser tratada de certas maneiras.
O rapaz rodou sobre os calcanhares e fitou-o nos olhos.
Toda a gente se calou. Os que estavam sentados e os que estavam de cócoras. Os que estavam deitados, a maioria já estava a dormir. Alguns até roncavam. Aliás, o ronco desses era a única coisa que se ouvia, nesse momento, em toda a sala. Como se uma legião fantasma de burriés gigantes avançasse sobre as cabeças de todo o mundo sem que nada o pudesse impedir.
E ficaram assim um bocado. Há quem diga que terá sido um bom bocado. Mas a maioria desses provou-se entretanto sofrerem do sindroma do pastel de nata. Perde-se a noção do tempo.
Então? Repetiu ele. Aquela insistência veio adensar ainda mais a tensão que já pairava no ambiente. O rapaz não pestanejou, continuando a olhá-lo fixamente nos olhos, sem se mexer. A situação ameaçava eternizar-se, quando a porta se abriu e entrou uma lagosta suada e a correr que nem uma sapateira. Todos os olhares caíram sobre a recém chegada. Depois de se levantarem, voltaram aos olhos dos presentes acabados de desembrulhar, enquanto a lagosta se assoava a este guardanapo. É verdade! Este mesmo que aqui vêem. É aliás a única prova de que tudo se passou realmente e nada disto é fruto da minha imaginação, ou vontade de vos agradar e entreter com histórias de fantasia e absurdo.
Parada no meio da sala, alvo de todos os olhares, a lagosta sentia-se um pouco desprotegida e ridícula. Olhou-os a todos em volta girando as antenas, como se procurasse o National Geographic das lagostas. A temperatura em volta ia gelando à medida que a água aquecia p’ró banho. Ninguém se arriscava a mexer um dedo, um café, ou sequer onde não fosse chamado. Um silêncio religioso e contundente escorria p’las prateleiras dos salgadinhos. O tempo pingava da torneira da tuborg. A lagosta desejava ter nascido no Minho, chamar-se Augusta e viver casada com um guarda-florestal.
O rapaz avançou um passo. Arrastava os calcanhares de forma provocadora e cínica, que lhe dava cabo das solas e nem produzia grande efeito. Parou dois metros mais à frente. Era perceptível já, a espuma que lhe começava a escorrer p’lo canto da boca e p’lo nariz. As pessoas na sala agarravam-se às cadeiras, batendo os dentes com o frio, que era cada vez maior.
A lagosta arrastava-se discretamente p’lo chão, tentando sair de cena, o mais rapidamente possível, sem ser notada. É fantástica a capacidade das lagostas, de se disfarçarem para escapar aos predadores e pessoas com mau feitio. Algumas espécies conseguem assumir formas estranhas, como rissol de camarão, ou chamussa de frango com caril.
O rapaz fez então uma coisa assombrosa. Abriu ainda mais os olhos e falou p’los cotovelos. Literalmente p’los cotovelos. Claro que, como tinha as mangas por cima, a voz saia-lhe um pouco abafada, mas dava perfeitamente para perceber o que dizia e o tom em que o fazia. Burriés! Burro és!
O sangue gelou-se nas veias e artérias principais das pessoas e dos animais. Tinham acabado de ouvir a pior coisa que alguém podia ouvir ao cimo deste mundo e continuar vivo, como se não tivesse ouvido nada! A mais antiga praga, o mais violento esconjuro que os Antigos deixaram em tenebrosa herança, sinistro legado.
Via-se que ele não estava a ver a verdadeira dimensão do problema, mas, mesmo assim, qualquer coisa o deve ter alertado. Olhou em volta e esboçou um sorriso. Deveria dizer: forçou um sorriso. Depois, olhando para a lagosta e coçando a cabeça, também ele se começou a transformar em carapau de escabeche. Há quem garanta que ainda sugeriu tremoços, se fosse possível; mas também isso não é certo e mesmo se fosse, não era relevante para a narrativa, nem adiantaria nada à verdade dos factos.
Quanto ao guardanapo. Sim senhor. Limpem-se os senhores a ele, que eu por mim, lagosta, nem aprecio muito.
Já devia passar das 6 da tarde e o movimento lá fora tornava-se ruidoso e impaciente. Sabia que podia confiar no empregado da recepção. Já o conhecia há muitos anos. Quase desde que para ali vinha. Era um polaco, que imigrara muito novo com a família, fugindo dos guetos da Nova Ordem. Um homem que ainda hoje calçava os sapatos ao contrário e dois números abaixo p’ra nunca se esquecer do sofrimento dos seus compatriotas.
Desviou as persianas da janela e o cabelo dos olhos. Olhou para baixo e espantou-se com o tamanho das pessoas lá em baixo. Pensou: ou o prédio cresceu, ou as pessoas estão a ficar mais pequenas! Mas não perdeu muito tempo a pensar no assunto. Havia coisas mais importantes a fazer, como lavar os dentes e ir para a cama. Pensou duas vezes e à terceira já se tinha esquecido do que tinha pensado da primeira vez. Por isso também não perdeu mais tempo a pensar nisso e foi para a cama sem lavar os dentes. Antes de se deitar, ligou para a recepção a perguntar as horas, só para se certificar. O polaco não estava de serviço essa noite e quem atendeu foi uma voz feminina de sotaque estrangeiro, mas não era espanhol. Ficou surpreendido e preocupado. Isto podia alterar-lhe os planos todos. A voz do outro lado da linha esperava que ele dissesse alguma coisa. Improvisou e começou a contar uma história fantástica de uma cabra que comia botões e tinha um corno encarnado e outro verde. Temia que alguém pudesse desconfiar do que se preparava, nessa noite. Qualquer passo em falso podia comprometer o esforço de meses e deitar tudo a perder. Percebeu que a rapariga do outro lado se impacientava e tentou então o tudo por tudo e perguntou-lhe as horas. Depois de um breve silêncio, ouviu-se um clique na linha e uma confusão de vozes em fundo, falando num dialecto que desconhecia. Pigarreou em catalão e depois em siciliano, mas do outro lado continuava a confusão de vozes em fundo. Tentou então cantar o hino nacional sueco, a ver se impressionava alguém. Foi então que do outro lado da linha, uma voz aflita gritou qualquer coisa, que não percebeu bem, mas lhe pareceu: hortaliça! Depois o silêncio. Poisou o auscultador e foi até à porta verificar se estava bem fechada. Fechou também a boca e abriu os ouvidos, um de cada lado. Ligou a televisão e regulou o som de maneira a não chatear os vizinhos, mas a abafar os ruídos do quarto. Depois foi até à janela e olhou, desta vez, para cima. Arre gaita, pensou, se isto é alto lá para baixo, lá p’ra cima não é mais baixo. Ficou confuso com esta conclusão espantosa e recuou até à cama, num movimento cambaleante e exótico. Deixou-se cair sentado, ao pé da cama. Mais propriamente, no chão. Ao pé da cama, mas no chão. Foi nesse momento que bateram à porta e ele aproveitou p’ra dizer que não estava. Disse-o de forma tão pouco convincente que ninguém acreditou e continuaram a bater na porta, com insistência. Sabia que era com insistência. Conhecia-lhes os métodos. Sabia que eles batiam sempre com insistência. Já era assim desde o tempo dos Campos de Amendoim Torradinho. Deixou-se ficar onde estava e começou a fazer caretas virado para a porta, em silêncio. Caretas horríveis. Sabia que eles odiavam aquelas caretas. Fazia-o de propósito, assim, atrás da porta, sem eles verem. P’ra que nunca soubessem, sequer, o desprezo que lhes tinha. E de repente deixaram de bater. Deixou-se ficar alerta. Arregaçou as pernas das calças do pijama e descalçou os chinelos para poder deslizar melhor p’lo chão do quarto. Subiu para a mesa-de-cabeceira e daí deslizou p’lo varão do cortinado até à cómoda, encostada na outra parede, em frente. Parou, de ouvido à escuta e rosa branca ao peito. Foi aí que a televisão começou a ficar com interferências e a deitar fumo por trás. Lá fora, uma sirene rasgou o ruído da rua, como um gato que tivesse entalado o rabo, por exemplo, na porta de uma ambulância. Sabia que tinha pouco tempo e mesmo o pouco tempo que tinha era bem capaz de chover. Se bem que a chuva podia acabar por ser uma preciosa aliada. Saltou para o chão, sem medo de ser ouvido. A ideia de que podia chover, deixara-o mais confiante e descontraído. Tanto que foi direito à lata dos caramelos e tirou uma mão cheia, com que encheu a boca com papel e tudo. Aproximou-se da televisão e deu-lhe uma pancada seca com a mão fechada. Depois outra, com a mão aberta. Não sentiu grande diferença e decidiu-se finalmente por um biqueiro no meio do ecran. Levantou a perna, tomou balanço, mas esqueceu-se momentaneamente do que estava a fazer e deixou-se ficar assim, de perna levantada, até sentir a outra perna dormente. Quando isso aconteceu, acordou-a com doçura e torradinhas. Era assim que ele as convencia a não o abandonarem. Sempre fora muito cuidadoso com o corpo. Estimava-o e defendia-o de todas as agressões externas. Costumava dizer: se ninguém escuta a voz do corpo, falarei eu por ele, custe o que custar, doa a quem doer. E assim era. Muitas vezes o viram em acesa discussão, falando pelos cotovelos, ou pelos joelhos, ou mesmo p’lo nariz, quando se constipou. Mas naquele momento sentiu que era a altura de ficar calado e não tirar conclusões precipitadas. Calculou, de cabeça, a distância entre as duas janelas e pensou que de nada lhe servia saber a distância entre as duas janelas, se não soubesse a velocidade a que o auscultador do telefone voaria, se o atirasse dali, de onde estava, até à outra ponta do quarto. Era uma tentativa arriscada demais até mesmo para a inutilidade do acto em si. De qualquer forma nunca conseguiria lançar o auscultador do telefone, com o aparelho ligado à parede. Foi essa conclusão que, uma vez mais, o tranquilizou e deu ânimo para comer mais uma mão cheia de caramelos.
Sentia-se tão descontraído que lhe apeteceu tomar banho. Foi até à casa de banho e pôs a banheira a encher. Depois espreitou p’la janela e esperou que o semáforo ficasse verde para entrar na banheira.
Tomar banho tinha, para ele, um efeito imprevisível. Muitas vezes saía da água a pingar, outras vezes caía numa espécie de transe cataléptico e desatava a cantar ópera em alemão, segurando o sabonete como se fosse um microfone. O problema é que o sabonete passava o tempo a escorregar-lhe da mão, o que o obrigava a baixar-se e não se percebia metade do que dizia, então, nessas alturas. A verdade é que, nas outras, também não. Mas isso nunca o preocupou. Era frio e calculista. Pouca gente alguma vez soube da maldade que se escondia por trás daqueles olhos piscos. Partir as pernas a um gajo primeiro, para depois ele aprender a andar. Uma teoria que ele defendia com um sorriso enquanto, levava a cerveja à boca. Mas agora era com a boca cheia de caramelos que pensava que, se calhar, era bem melhor assim! Toda a gente pensava que ele tinha embarcado no navio para as ilhas, enquanto, na verdade, ele se escondia ali, manobrando na sombra toda a sinistra estratégia, que essa noite haveria de virar o curso da História, de forma radical e definitiva. Tentou não se sentir mais confortado com este pensamento, porque já não tinha mais caramelos. Saiu da banheira, que sempre era o melhor que fazia. Ou isso, ou as malas para o Quilimanjaro. O problema é que não sabia falar quilimanjês! A menos que lhes fizesse um boneco. Mas será que os quilimanjares eram gente de bonecada? … Odiava quando estas dúvidas o assaltavam. Ainda por cima à saída do banho, quando o apanhavam só com uma toalhita à volta das pudendas. E ainda mais, uma pessoa ralar-se por causa dos quilimanjares! Mas quem eram os quilimanjares, afinal?! Parece que já nem o banho lhe estava a fazer proveito. Tentou acalmar-se. Mastigou mais uma mão cheia de caramelos imaginários e achou-se uma besta. Pois se estava a imagina-los, porque não imaginar coisa mais interessante que caramelos?! Tentou afastar esses pensamentos da cabeça e dos ombros. Fez um esforço de concentração, a ver se se lembrava de onde tinha posto as chaves do frigorífico, até que se lembrou que o frigorífico não tinha chave e respirou de alívio. Faltava pouco mais de meia hora e ele sabia que esses 30 minutos iam passar de forma dolorosa e fatal como um pepino. E um pepino dos doces, que ele há pepinos, que nem em 3 quartos d’hora, uma pessoa faz a digestão daquilo! Aguentou-se à bronca, que é sempre o melhor que se pode fazer, nestas alturas. E no caso dele ainda mais, que a altura era de um vigésimo andar! Por este andar, dizia ele, não vamos longe! Era o que ele costumava dizer: às vezes, era preciso partir as pernas a um gajo primeiro, para depois ele aprender a andar. Claro que muitas vezes, ninguém lhe agradecia o gesto, mas, a isso já ele se habituara. Não guardava rancores, nem cobrava facturas. Ele era, definitivamente, mais fracturas. Expostas, impostas, descompostas. De resto, não havia muito mais a acrescentar. Raras vezes o ouviram dizer qualquer coisa parecida com: o que é que eu ia a dizer, que não era mentira… Nada disso e até, às vezes, muito antes p’lo contrário! Quanto a rancores eram mais as vozes que as nozes. Outras vezes mais o que ouvides do que as pevides, quando não é mais o que apanhas do que as propriamente castanhas! A verdade é essa e isso ninguém nunca o conseguiu provar nem desmentir. Ora toma e embrulha, como se dizia na sua Bronx natal. Já lá não ia desde a Páscoa, mas nunca lhe perdera o jeito. Fazia os melhores embrulhos de toda a zona. Claro que toda a gente sabia o que ia dentro dos embrulhos, mas todos faziam que acreditavam que não sabiam de nada. Era melhor para toda a gente e toda a gente ficava melhor assim. Sentia às vezes aquela guinada violenta na coxa esquerda e isso lembrava-lhe os dias difíceis em que corria à frente da carroça do lixo, por aquelas vielas sujas, onde os gatos vão deixar as espinhas que já não comem, aqueles becos imundos e fundos como o diabo que os pintou. Aí então é que era pior! Estão a ver um camião do lixo a fazer a manobra num beco? Era sempre uma tourada, os homens do lixo acabavam sempre por se engalinhar numa zaragata do caraças e o lixo ficava por apanhar e que se lixe. Dias difíceis, em que as nêsperas não caíam do céu, nem os papos secos se vendiam nas farmácias! Resistiu a tudo. Sobreviveu e tornou-se forte. E ali estava, em cuecas e chinelos de quarto, pronto p’ra qualquer eventualidade, ou surpresa e prestes a tornar-se o homem mais importante do planeta inteiro, ou p’lo menos de uma parte jeitosa.
As luzes da rua davam ao quarto um aspecto de filme barato e sem enredo. Não gostava particularmente do aspecto, mas como era dado, dava-o de barato. O que o preocupava eram as sombras! As sombras chinesas, em especial. Nunca as compreendeu verdadeiramente. Isso irritava-o e deixava-o apreensivo. As sombras chinesas eram um mistério para ele. Tentava imitá-las e sentia-se ridículo. Ou então ficava muito quieto, à espera que se movessem. Esperando apanhá-las em falta, ou num movimento em falso. E aí, sentia-se mais ridículo ainda.
Partir as pernas a um gajo! Sabia que a violência da imagem lhe tinha já poupado muitos amargos de boca, como daquela vez em que o avisaram que a sopa estava azeda. Foi-se ao cozinheiro, partiu-lhe as pernas, p’ra ele aprender e veio-se embora, sem comer a sopa. Não se vangloriava destas coisas, mas tinha de admitir que lhe dava muito jeito a fama que tinha no submundo do crime e nalgumas adegas cooperativas. Dava-lhe, por exemplo, para andar de metro sem pagar, o que, nos dias de hoje, já não é pequena vantagem!


