quinta-feira, 16 de outubro de 2008

É o título e manchete do Diário de Notícias:”Pensões acima de 611 euros perdem poder de compra.”

Passemos adiante a questão de perceber que poder de compra sobra, aos que recebem menos de 611 euros de pensão. Fiquemos só na chamada de capa do DN, que diz que os reformados, que recebem entre os tais 611 euros de pensão e os 2445, vão receber um aumento de 2,4% - inferior à inflacção prevista, que é 2,5 - e daí o dizer-se que vão perder poder de compra.

Os que recebem até 4889 euros serão aumentados em 2,15%... um pouco menos, portanto.

E os outros?! Perguntar-se-à… Pois os outros, diz o jornal, receberão aumento zero. Ou seja, não recebem aumento nenhum. Falta só esclarecer – talvez e se quisermos ser ingénuos – falta só saber de que outros estamos a falar... Dos que recebem mais de 5 mil euros de pensão? Ou dos que recebem menos de 600 euros?

O Público é mais discreto. Diz assim: “Professores fazem música de louvor ao Magalhães e colocam-nas no Youtube.”

O 24 Horas, esse faz a festa logo na capa: “Professores ridicularizados por causa do Magalhães.” O Magalhães, claro que é o computador. Em antetítulo à manchete, o 24 explica que a acção de formação pôs os docentes a cantar e a dançar canções de propaganda ao computador.

Regressemos ao Público. Foram 850, entre professores e coordenadores de Tecnologias de Educação e Informação, os convocados para essa tal Acção de Formação que decorreu, durante dois dias e pelo pais fora. Um dos professores terá filmado com o telemóvel, uma dessas acções e colocou as imagens na Internet. Dentro do contexto, pode dizer-se que está a ser um sucesso.

Vamos aos factos, tal como os relata o jornal.

Foi nos dias 25 e 26 de Setembro que 200 professores se reuniram, no caso descrito por este professor, em Cantanhede para a tal acção de formação. Acontece que lhes foi entretanto pedido que inventassem uma canção que falasse do Magalhães. Desde o Malhão do Magalhães, até a versões adaptadas de outras cantigas conhecidas, como a Grândola de José Afonso… e com coreografia. Com encenação dramática. Por exemplo, a Grândola… no filme que corre na Net podem ver-se os professores sentados numa escada, fingindo que remam, enquanto cantam qualquer coisa como: “um PC de encantar, que já não há volta a dar, veio para ficar...” Ou então, com outra música também conhecida, mas que para o caso pouco interessa, e onde se cantava que – subentende-se o Magalhães – “a trabalhar é um desembaraço, para nós foi uma alegria, para dar mais um passo , com esta nova tecnologia…” Diz o professor, que teve de sair a meio, farto do que chamou um “circo ridículo”. Queixa-se ainda de que os formadores nem português falavam, tirando um deles, que era brasileiro. Foi preciso um intérprete. Os formadores, no caso, eram 3 senhoras, que vieram dos Estados Unidos, da INTEL, a empresa que fabrica e vende o Magalhães em bruto e aos bocados.

Ora, um responsável português da INTEL disse ao Público, que as 3 senhoras são professoras "especialistas na utilização das novas tecnologias na sala de aula e no método colaborativo". Diz que foi pedido aos participantes que entrassem num jogo, que pode ser desenvolvido nas salas de aula, por crianças de 6 , ou 10 anos...

O sindicato dos professores não se manifesta por enquanto, porque diz que não tem nenhuma denúncia do caso. Já o Ministério da Educação terá prometido ao 24 horas e consta que depois de muita insistência uma reacção da parte do Plano Tecnológico. Uma reacção que ainda não terá chegado à redacção do jornal, pelo menos, não até à hora do fecho da edição. Não chegou ao 24 , mas chegou ao Público e a resposta foi que, para os professores, estas acções de formação constituíram uma “mais valia”.

Ora, pois se não mais valia... Oh Sócrates, atina, pá!

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

População reclama mais médicos. É assim que o Correio da Manhã dá o alerta, em título à notícia que vem de Alpiarça, com carimbo de urgência.

Há já mesmo um abaixo assinado a correr na povoação reclamando melhores condições de assistência no Centro de Saúde local. O Correio da Manhã diz que a população de Alpiarça está a constituir uma comissão de utentes. Mais médicos e melhores condições de atendimento é o que se reclama.

E o jornal dá depois exemplos e relata episódios avulsos que ilustram o ponto da situação.

Do doente cardíaco que terá tido de se deslocar às Urgências de Santarém, com um princípio de enfarte, depois do médico do Centro de Saúde lhe ter negado assistência. Conta-se também que um outro doente terá esperado 8 horas por uma receita médica que no fim acabou por lhe ser negada. Não a receita, mas a própria consulta. Neste caso, adianta o jornal, quando pediu o Livro de Reclamações ter-lhe-ão respondido que se não estava contente com o serviço que subscrevesse o abaixo assinado que corre pela vila. Isto é o que conta o Correio da Manhã que garante que quando tentou conferir o ponto da situação com os responsáveis do Centro de Saúde lhe terá sido respondido que o director está de férias e só volta para a semana. Diz que também a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo se terá escusado a comentar a situação do Centro de Saúde Alpiarça.


Outra história que hoje corre pelos matutinos é a da saída de 12 médicos do Instituo da Droga e da Toxicodependência.

Segundo o Diário de Notícias, nos últimos meses houve 32 pedidos de saída, 13 dos quais autorizados e 19 ainda pendentes. O jornal lembra que deu conta do facto na altura e que na altura também José Goulão, presidente do Instituto, terá dito que, a aceitar todos os pedidos de saída, alguns centros de atendimento ficariam inoperacionais.

Bom , hoje a notícia é definitiva. O próprio presidente José Goulão admite aos jornais, que 12 médicos terão já saído mesmo, do Instituto da Droga e da Toxicodependência.

A razão é simples . Tanto José Goulão, como a própria ministra Ana Jorge da Saúde já fizeram questão de esclarecer toda a gente. Os médicos são funcionários públicos e como tal estão a usar a lei da passagem à disponibilidade, que é um direito que têm – disse ontem a ministra. José Goulão diz que são as janelas de oportunidade. José Goulão disse ontem à Agência Lusa, que esses 12 médicos cujos pedidos de saída foram aceites não estão insatisfeitos com nada em especial. O que estão a fazer é a aproveitar a janela de oportunidade da mobilidade especial . Quanto a Ana Jorge, uma vez mais, diz também que estas mudanças não são um desinvestimento , mas um investimento de forma diferente.

Ora nada garante que a mobilidade especial destes 12 médicos os leve eventualmente a Alpiarça, onde já se viu que eles estão em falta.
Do resto é quase uma questão filosófica. Para uns o copo está meio cheio, para outros, meio vazio.


E esta é uma matéria que pontua em todos os jornais, sendo que os títulos deles todos não fogem muito disto: Associação de Bioética defende referendo sobre a eutanásia. É o que escreve o JN. Um referendo sobre a morte medicamente assistida na próxima legislatura e após um período de debate plural e participado. O anúncio foi feito ontem no Porto, pelo presidente da Associação Portuguesa de Bioética.

O Público adianta que a questão a colocar aos portugueses no desejado referendo ainda não está pronta. Sabe-se só que, segundo Rui Nunes, o presidente, a palavra eutanásia não deverá constar do enunciado. Antes, mais qualquer coisa dentro do “concorda ou não com a liberalização ou legalização da morte medicamente assistida”...

O 24 Horas garante por seu lado e entretanto que o modelo defendido pela Associação Portuguesa de Bioética é o holandês. Em sub-título explica-se que os doentes terminais podem pedir a morte medicamente assistida, já os menores e os desencantados – como lhes chama o 24 – esses , não. Para o presidente da Associação de Bioética há que deixar de fora os doentes incapazes de uma decisão, como é o caso dos doentes em estado de coma. De fora também os recém nascidos, as crianças e adolescentes, bem como os deprimidos, ou aqueles que pedem a eutanásia devido a sentimentos de abandono familiar ou exclusão social. Na fotografia que o jornal publica, Rui Nunes garante, entretanto, que os médicos portugueses mostram já uma maior abertura a este tema.

O Correio da Manhã, por seu lado, assegura que a proposta de referendo vai ser apresentada ainda esta semana em S. Bento. Espera-se então que o debate suba a discussão parlamentar na próxima legislatura.

Ora o Diário de Notícias é quem abre o espaço maior na edição de hoje a esta matéria. As centrais. Em letra grande e negra anuncia-se o que já vos tinha dito, que a Associação de Bioética quer referendo à eutanásia.

Continua-se em sub título que a Lei para pôr termo à vida não pode ser decisão do estado.

Em ante-título fala-se de morte a pedido e que é um tema fracturante o que a Associação de Bioética pretende introduzir, ao lançar o debate na sociedade portuguesa. Diz também que para o bastonário da Ordem dos Médicos tudo isto é um redondo disparate – lá pelo corpo da notícia fica-se a perceber que, para o bastonário Pedro Nunes, é um disparate porque “não há necessidade nenhuma de provocar um debate dessa natureza, pois a eutanásia é um debate do passado”. No presente, o bastonário defende e aposta numa boa rede de cuidados paliativos. Pedro Nunes vai mesmo mais longe – vertiginosamente mais longe, diria… diz Pedro Nunes, que é muito perigoso legitimar a eutanásia, pois “mais tarde ou mais cedo, ia levantar-se a questão de se o médico está interessado em tratar o doente, ou em que ele morra o mais depressa possível, para poupar dinheiro ao Estado”. Paremos só um segundo para reler esta afirmação… diria mesmo esta aflição do bastonário da Ordem dos Médicos, Pedro Nunes- “mais tarde ou mais cedo...” ( estou a manter as aspas do DN) “...mais tarde ou mais cedo levantar-se-ia a questão de se o médico está interessado em tratar o doente, ou em que ele morra o mais depressa possível para poupar dinheiro ao Estado.”

Já está, adiante!

O Diário de Notícias – já que o assunto há-de subir a apreciação parlamentar – o DN foi também perguntar a alguns deputados o que pensam sobre o assunto. E as respostas são esclarecedoras. Primeiro as perguntas, se bem que para o caso pareça um pouco irrelevante o que se pergunta. Mas vá lá. “Concorda com a realização da eutanásia medicamente assistida?” Segunda pergunta: “concorda que se faça um refendo nacional?…”

Maria de Belém Roseira, do PS, acha que o tema é demasiado complexo para uma resposta tão simples; quanto ao referendo, alerta para o fantasma da abstenção.

Para João Semedo, do Bloco de Esquerda, o problema é a palavra eutanásia. Diz que não concorda. Morte medicamente assistida é outra coisa. Acha bem que se faça uma lei sobre a matéria. Refendo também não, porque a questão envolve direitos individuais.

Teresa Caeiro, do CDS PP, diz que qualquer discussão sobre eutanásia deve ser feita com seriedade. Diz que para isso é preciso resolver todas as opções anteriores. Do referendo diz que os portugueses já mostraram que não têm grande apreço por esse tipo de consultas. Enfim não chega a responder a nenhuma das perguntas, mas concordemos que o faz com alguma elegância.

Agora Carlos Miranda, do PSD. Acha que não é absolutamente indispensável que se recorra ao referendo nesta matéria. E quanto a esta matéria e a título pessoal, diz Carlos Miranda que tende a ser favorável à eutanásia – a palavra não o assusta como ao colega do Bloco de Esquerda, mas há um senão. Para Carlos Miranda, a eutanásia medicamente assistida sim, mas desde que devidamente acompanhada. Que parte da palavra assistida é que o deputado não percebeu?!!

terça-feira, 14 de outubro de 2008

É um fenómeno que está a aumentar em Portugal, avisa logo o Diário de Notícias, em ante-título. Depois, abrem-se as maiúsculas para dizer que há "900 queixas de assédio moral no trabalho". Assédio moral. Não sexual. Que desse já muito se tem falado. Assédio moral. O que está aqui em causa é o chamado assédio moral. E o que é o assédio moral? Para a Inspecção-geral do Trabalho, assédio moral é um processo de destruição premeditado do indivíduo. Como e por exemplo?... "O trabalhador é colocado a ler um jornal num cubículo e não lhe é distribuído trabalho durante um determinado período de tempo. Há muitas situações que nós detectamos e o número tem aumentado...” – como já repararam estava a citar alguém. No caso, o inspector-geral, Paulo Morgado de Carvalho.

Diz que, nos últimos 3 anos, a Inspecção-geral recebeu mais de 900 queixas e instaurou mais de 200 autos e 150 acções de fiscalização direccionada para estes casos concretos e específicos.

Para o advogado Fausto Leite, especialista em Direito do trabalho, o chamado assédio moral no trabalho “é uma realidade do quotidiano que se agrava em tempos de crise económica e de precariedade e desemprego”. Diz o advogado que, este estratagema das empresas, para se livrarem dos trabalhadores considerados excedentários, afecta 16 milhões de pessoas por essa Europa e 100 mil, só em Portugal. E que os que rondam os 50 anos de idade são os mais afectados. Diz que lida diariamente com situações destas, em que falsos acordos de cessação de serviços escondem despedimentos sumários precedidos, o mais das vezes, por essa tal guerrilha psicológica.

Segundo o Código do Trabalho, assédio moral é “qualquer comportamento que afecte a dignidade do trabalhador, ou crie um ambiente hostil, intimidativo e degradante, humilhante ou desestabilizador”. Diz a experiência e verificação dos factos que, o método mais comum é colocar o trabalhador confinado a uma secretária minimalista sem computador e muitas vezes sem telefone nem nada para fazer, dias a fio, até o vencer pelo cansaço . O Diário de Notícias dá, em coluna aparte, o exemplo de um funcionário a quem terá sido dito que o único lugar que lhe restava naquela empresa era o vão de escada. Foi despromovido do lugar de chefia que ocupava há 11 anos e destacado para uma espécie de degredo, num departamento onde não faz praticamente nada. Diz que aproveita o tempo que lhe sobra para estudar, já que entretanto resolveu acabar um mestrado e prepara-se já para o doutoramento. E tudo isto terá acontecido porque – e isto, consta que aconteceu há já 17 anos… há 17 anos portanto que foi o que, em gíria se chama ser posto na prateleira… e aconteceu, dizia, porque se terá recusado a aceitar a rescisão proposta pelo patrão. Na altura, este funcionário que o DN puxa para exemplo , era o director financeiro da empresa.

Ora, o jornal diz que há 17 anos que , apesar do alegado assédio moral, este trabalhador se mantém em funções. É o que se depreende do título: “Há 17 anos metido na prateleira.” O que, a ser verdade, façamos as contas... Foi director financeiro durante 11 anos e está na prateleira há 17… contas feitas, quem estará a fazer a vida negra a quem, neste momento e ao fim destes anos todos.

E a crise! Diz o JN que a crise pode levar mais publicidade ao horário nobre inglês.

A crise financeira afecta também o mercado das comunicações, explica o jornal. E por isso, em Inglaterra os operadores de televisão estão a pensar em carregar no peso da publicidade durante os horários chamados nobres de emissão. Ou seja, passar dos actuais 8 minutos por hora, para 12 minutos por hora. Pelas contas feitas isso dará um lucro acrescido de 120 milhões de libras, ou seja , mais de 150 milhões de euros, por ano. Segundo as novas regras, as televisões passam a poder emitir uma hora de publicidade, ao todo e no período entre as 6 da tarde e as 11 da noite. Acontece que, no cômputo geral, o peso da publicidade mantém-se igual ao fim das 24 horas, o que se vai fazer é concentrar a publicidade nos horários de maior audiência.

Esta é a ideia. Esta é a solução das televisões inglesas para vencer a crise económica e financeira que as ameaça.

Já vimos que as alterações podem render mais de 150 milhões de euros ao ano.

O que falta conferir é , desde quando a nobreza de qualquer coisa se mede e pesa e avalia desta forma original… ou seja, por que carga de água se chama horário nobre ao período em que mais gente se encontra concentrada, parada, pasmada a olhar para um ecrã de televisão... Que nobreza pode haver numa atitude dessas?! Uma nobreza catatónica? Ah! Essa...

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Rezam as crónicas da História da Electricidade

Rezam as crónicas da História da Electricidade, que tudo começou na Antiguidade, na Grécia antiga. Quando Tales de Mileto, ao esfregar um pedaço de âmbar numa pele de carneiro, observou que pedaços de palha eram atraídos pelo âmbar. A palavra eléktron significa âmbar em grego.

Ora, portanto e em última análise, poderia dizer-se que a culpa é de Tales de Mileto. Mas não. O que diz o Diário de Notícias é que a culpa foi da criança. Da criança de 7 anos que se agarrou ao poste eléctrico, se pôs a abaná-lo e apanhou um choque que a mandou para o hospital

Ora vamos lá a desvendar o mistério. Os factos ocorreram em Fevereiro deste ano, em Viana do Castelo. Um menino de 7 anos foi electrocutado quando, na brincadeira, se agarrou a um poste de iluminação pública. O caso foi para tribunal e agora o Ministério Público acaba de concluir – e é essa a notícia – que a culpa foi da criança, arquivando-se assim a queixa contra a EDP, apresentada pela família da vítima. Os pais estão obviamente indignados com a decisão do tribunal.

Ora, faltava então um quarto para as 9 da noite desse 23 de Fevereiro. Os pais tinham ido à papelaria, logo ali e ele ficou à espera na rua. Enquanto esperava ter-se-á agarrado, na brincadeira e em simultâneo, a um poste de iluminação e um sinal de trânsito, ao mesmo tempo e com os braços abertos. Foi isso que provocou a descarga eléctrica. De tal forma que teve de receber assistência hospitalar, durante 12 horas e mesmo assim, há que voltar periodicamente ao médico, que estas coisas podem deixar sequelas, que só mais tarde se revelam e manifestam… Mas voltemos aos factos.

Segundo o relatório apresentado por técnicos da EDP – escreve o DN – no interior do poste haveria um cabo eléctrico que não estaria convenientemente isolado e, ao agarrar-se ao poste e ao abaná-lo, a criança pode ter feito soltar o tal cabo mal isolado e depois, ao segurar o outro poste metálico – é a lei da física e da electricidade - o corpo fez de condutor eléctrico e provocou a descarga. Diz o relatório da EDP que, muito provavelmente o rapaz estaria a abanar o poste… foi isso… diz que não havia tensões entre terra e massa metálica mas que, abanando o poste, o voltímetro digital apresentava valores de tensão descontínuos… Foi isso que provocou o acidente. A criança pôs-se a abanar o poste e apanhou um choque que o cuspiu para o chão. A culpa foi da criança, diz a EDP. O Ministério Público também acha que sim e mandou arquivar o processo.

Porque se a criança não tivesse agarrado o poste e não se tivesse posto a abaná-lo, nada de mal teria acontecido.

Deixemos de lado e para já saber que força poderá ter uma criança de 7 anos para abanar até o deixar todo desconjuntado por dentro, um poste de iluminação pública, que é suposto estar bem agarrado ao chão, não nos vá cair em cima qualquer coisa mais que uma fulminante descarga eléctrica… deixemos isso. Fiquemos só por esta conclusão brilhante do Ministério Público. Enfim, brilhante, mas pouco rigorosa. Que em verdade, e voltando ao principio, se não fosse Tales de Mileto ter descoberto os princípios básicos da electricidade. Se não fosse gente como esse André Marie Ampère e outros dessa laia se terem posto a estudar as propriedades e segredos da electricidade e um caso como o de Viana do Castelo, este de que vos falo, poderia sempre ser explicado por obra de um qualquer espírito malino, que de súbito tivesse encarnado no corpo do miúdo, fazendo-o estremecer, ficar hirto por segundos e ser depois cuspido para o chão, como possuído pelo próprio diabo.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

uma evidência impossível de contornar

E isto da realidade é, como alguém já disse, “uma evidência impossível de contornar”.

Foi Cavaco Silva, ontem no discurso do 5 de Outubro. O presidente da República disse – e passo a citar a própria citação do Jornal de Notícias - “Quando a realidade se impõe como uma evidência não há forma de a contornar.”

Foi o que disse Cavaco, que entretanto confessou também – é aliás essa a própria manchete da notícia no JN- disse Cavaco e citemos: “Não escondo que vivemos tempos difíceis!”. A verdade é que, mesmo que o tentasse, é pouco provável que o conseguisse.

Mas fixemo-nos antes nessa outra afirmação. A de que, quando a realidade se impõe como uma evidência, não há forma de a contornar.

Haver há. Enfim, a verdade é que, se se quiser mesmo e muito, há sempre forma de contornar a realidade. Os subterfúgios são muitos e alguns sobejamente conhecidos. Alguns têm nomes pomposos – demagogia, sofisma, teimosia, alienação… ou então, se quisermos, pode dizer-se que é uma questão de fé. Coisa tão inabalável como sem explicação.

E foi também disso que se queixou ontem Bento 16. A falta de fé dos homens. Diz o Papa que a culpa é de uma certa cultura moderna. Diz Bento 16 que, quando o Homem se proclama proprietário absoluto de si mesmo e único mestre da criação, cresce a arbitrariedade do poder, os interesses egoístas, a injustiça e a exploração e a violência.

Isto foi ontem, quando o Papa abriu o sínodo, que vai debater, até dia 26, o papel da palavra de deus e da Bíblia.

Enfim, o alerta ficou dado e, sem irmos tão longe como a arbitrariedade do poder e os interesses egoístas, fiquemo-nos só por esse pequeno exemplo que ilustra precisamente a falta de fé, de que o Papa se queixa. Fiquemo-nos pelas declarações de Cavaco Silva. Diz o presidente que quando a realidade se impõe como uma evidência não há forma de a contornar… Ora bem!, haver, há. Haja Fé!


De inovação nos dá conta o DN de hoje.

De inovação e investigação e tudo isso a propósito do lançamento da primeira pedra do centro de investigação da Fundação Champalimaud. Um gesto simbólico sempre. O do lançamento da primeira pedra. Em verdade tão simbólico quanto patético, na maioria das vezes. Mas ninguém leva a mal, nem se atreve a escarnecer destas praxes e rituais. A primeira pedra, a primeira árvore…

O dignitário, que tarefas destas não são entregues a qualquer um… o dignitário empunha a pá e – com cuidado para não sujar o fato – lança a pá à terra para plantar a árvore, ou enche-a de massa de cimento para assentar a tal primeira pedra.

Pois o Diário de Notícias publica hoje a fotografia do lançamento da primeira pedra do centro de investigação da Fundação Champalimaud.

Na foto vê-se Sócrates – por inerência de funções – executando o tal gesto ritual. De pá de pedreiro na mão? Não tanto. Sócrates dobra-se para a frente e com todo o cuidado, de braço esticado poisa uma espécie de tijolo esbranquiçado sobre uma pequena prateleira verde, que se ergue na frente de um pequeno veículo de 4 rodas que lhe rasteja à frente. O engenho foi construído de propósito na e pela Universidade de Aveiro – é o que diz o jornal: que a Universidade de Aveiro construiu de propósito este robô para que ele – o robô – transportasse este pequeno tijolo esbranquiçado até ao local onde simbolicamente se vai assentar a primeira pedra do tal centro de investigação.

Sócrates estica-se, sorridente, depondo o tijolo na prateleira frontal do robô como quem dá um osso a um cão, ou como quem lhe dá a cheirar o pau, ou o pantufo, que vai ser lançado para longe, para o cão o ir buscar.

Leonor Beleza, presidente da Fundação, assiste sorridente em 2º plano.

O robô, esse não podia ter um ar mais feliz, pela distinção e honra que lhe foi concedida. A bem dizer, só lhe falta abanar a cauda.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Ora, gente de boa vontade… vamos por aí.

Ora, gente de boa vontade… vamos por aí.

Viana do Castelo. Fecha-se o zoom e estamos na aldeia de Darque, Viana do Castelo.

Foi aí, num contentor de 10 metros quadrados, que, nos últimos 20 anos, viveu Maria Augusta. Hoje tem 90 anos. 50 deles foram vividos a trabalhar na seca do bacalhau. Quando se reformou ficou a receber uma pensão de 15 euros por mês.

Por isso, passou a viver num contentor abandonado na berma da estrada, que leva à passagem de nível da Seca, na aldeia de Darque… No Verão não se pode com o calor, no Inverno é um gelo de morte.

Pois finalmente, Maria Augusta vai abandonar o contentor, onde viveu nos últimos 20 anos, e vai ter finalmente uma casa digna. Foi a Câmara de Viana do Castelo quem se encarregou de arranjar a casa e logo ali perto e mais ainda, será a própria autarquia a pagar a renda. Quer isto dizer que alguém de boa vontade acordou para a situação em que vivia esta senhora de 90 anos e resolveu interceder, em nome da solidariedade, em nome da dignidade, em nome de outra qualquer piedosa virtude?... Não tanto. O que acontece é que se vai construir uma passagem subterrânea da linha do comboio. O que faz com que a estrada, à beira da qual Maria Augusta vivia, vai ser fechada. O que faz com que as máquinas já estejam prontas para avançar com as obras. O que faz com que o contentor tenha que sair dali para fora. Para a sucata, para o lixo. Claro que ninguém teria coragem de nenhuma de duas coisas. Deixar a senhora ao relento, ou mandá-la para o lixo, juntamente com o ferro velho. Por isso lhe deram finalmente uma casa. Por isso finalmente repararam que havia alguém a viver num caixão de ferro de 2 por 5, à beira da estrada.



Afogamento, armas de fogo e enforcamento.

Sendo que, o enforcamento é o método mais utilizado, entre os suicidas de 16 países europeus, Portugal incluído. Porque é disso que o DN dá conta, na notícia que hoje ocupa quase meia página do jornal.

As mulheres usam métodos menos letais, enquanto os homens optam pelos mais eficazes.

Em Portugal, quase metade dos suicidas opta pelo enforcamento. Em segundo lugar surgem as armas de fogo – isto no caso dos homens, já as mulheres, no caso português e julga-se que pela extensão da costa portuguesa - as mulheres portuguesas escolhem o afogamento para consumar o suicídio. No resto da Europa é a sobre dosagem de medicamentos, a 2ª causa de suicídio entre as mulheres – em Portugal são muito poucas.

Tudo isto se conclui do estudo agora divulgado e que se chama "Métodos de Suicídio na Europa" e que pretende ajudar a identificar e limitar o acesso aos recursos disponíveis e mais comuns na prática do suicídio.

Ora bom, regressemos ao princípio. E no princípio anuncia-se – em título mesmo -que metade dos suicidas (subentenda-se: portugueses) opta pelo enforcamento. É também o que se pode ler na legenda da fotografia que ilustra a noticia. Diz assim: “52,3% dos homens portugueses optam pelo enforcamento” (poderíamos começar por aqui, pela concordância verbal – estou em crer que se deveria ter escrito que 52,3 % dos portugueses opta por… por aí fora, adiante.) A fotografia. Também fica por saber até que ponto ela fazia aqui alguma falta. Mas saltemos esse ponto e vamos à fotografia. De um enforcado?... Seria de muito mau gosto, mas faria sentido, atendendo à legenda. Mas não. A fotografia não é de um enforcado.

A fotografia foi tirada à beira de uma estrada. Isso percebe-se. E até podia ser à beira da estrada que cruza o vale de Alcântara. Mais concretamente sobre o viaduto Duarte Pacheco. Enfim podia ser, nada garante.

Há um muro baixo, protegido por uma rede e, pela copa das árvores em fundo, percebe-se que do outro lado do muro a altura deve ser considerável. Portanto, aquele homem, que ali está de costas para nós, em pé sobre o muro, olhando para baixo, braços caídos ao longo do corpo, estará a preparar-se para saltar. Prepara-se para se suicidar, saltando. Portanto e para já, ficamos a saber que este alegado suicida não pertence aos tais 50 e pouco por cento de que fala a própria legenda. Portanto, ou a fotografia não é dali, ou a legenda não tem muito a ver. Mas, a questão adensa-se, quando pensamos neste pequeno detalhe. Este homem, que aparece na fotografia, vai mesmo suicidar-se ou está só em pose para a fotografia?... O primeiro caso parece improvável, o segundo é de gosto duvidoso. Mas há mais. O homem que aparece na fotografia, alegadamente prestes a cometer suicídio, despiu a camisola, que pendurou na rede metálica atrás dele. E despiu mais. Despiu também as calças e descalçou sapatos e meias. Ou seja, o que se vê na fotografia é um homem, de costas para nós em pé em cima de um pequeno muro de pedra, vestido apenas com uns calções, que lhe dão pelos joelhos e com um padrão vistoso e colorido às riscas verticais. Enfim, como um vulgar calção de banho de praia. Ou seja, o homem que aparece na fotografia parece mais que vai saltar para uma piscina, do que para uma morte certa.

Ou seja, se uma imagem vale mais que mil palavras, também é verdade que, às vezes, mais vale ficar caladinho.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

e a tenda dos estábulos tem ar condicionado

Estreia hoje e o “Público” puxa para título esta frase lapidar: “Cavalia já conquistou Lisboa.”

“Cavalia” é o nome do espectáculo, o maior espectáculo itinerante do mundo, diz-se, e que mistura artes equestres e circenses. Imaginado e posto em cena por um cavalheiro que foi co-fundador do Cirque du Soleil. “Cavalia”, portanto.

Foi visto por mais de 2 milhões de espectadores, na América do Norte e na Europa e, desde que foi estreado pela primeira vez, há 5 anos, já foi apresentado mais de 10 mil vezes, por esse mundo fora.

Em Portugal, em Lisboa, estreia hoje, no passeio marítimo de Algés. O aparato de tendas – enormes, de oleado branco – criou um cenário quase das arábias, ali junto ao Tejo.

Escreve o “24”, que já se venderam 15 mil bilhetes. Um sucesso tal, que a companhia admite prolongar a estadia em Lisboa, se o público assim o pedir.

Mas regressemos ao título. “Cavalia já conquistou Lisboa”. Qinze mil bilhetes vendidos… Já agora, os bilhetes andam entre os 20 e os 155 euros… e já se venderam 15 mil bilhetes e foi uma loucura tal que até surpreendeu o próprio director do evento.

Ora, do que se sabe do espectáculo é que já correu mundo e que foi visto por 2 milhões de pessoas, em 11 mil representações e que foi encenado por um ex membro e fundador do Cirque du Soleil. E que mete cavalos. Muitos cavalos. Aliás, do que se sabe realmente de concreto e seguro, é pouco mais que isso… números. E tudo em grande, como as tendas e a publicidade que se lhe vai fazendo. Números. 60 cavalos, 37 artistas, 8 tendas, 200 camiões, mais 120 pessoas a dar apoio nos bastidores e as toneladas de fava e palha que são precisas para manter os animais…

Sabe-se que, antes de embarcar para Lisboa, os cavalos repousaram vários dias numa quinta do sul de França; sabe-se que a tenda dos estábulos tem ar condicionado; sabe-se que nesta pequena aldeia itinerante há também uma cafetaria e uma tenda VIP para receber os convidados famosos. Do espectáculo mesmo – e se já reparam na campanha que tem passado nas televisões … sabe-se que – segundo o New York Times, (que a campanha faz questão de citar, como sentença do mais alto e insuspeito valor…) segundo o New York Times, “Cavalia” é – cito de cor – um conto de fadas concebido por um dos fundadores do Cirque du Soleil. Uma vez mais, cita-se uma entidade – no caso o Cirque du Soleil – como se lhe reconhecesse uma autoridade, ou garantia de excelência acima de qualquer discussão ou suspeita… mas do espectáculo mesmo o que é que se sabe?...

Do próprio espectáculo diz-se, para além do que já se ouviu, que é romântico e alegre e que mistura cavalos com acrobacias e fantásticas projecções… Diz-se também, que em Lisboa já se venderam 15 mil bilhetes a preços que se ficam entre os 20 e os 150 euros, contas redondas…

Mas, enfim, resumindo, tudo o que se sabe são pormenores paralelos à própria função.

São números grandes… 2 milhões de espectadores, 200 camiões, 60 cavalos, tendas gigantescas… Tudo impressionante. Como os 15 mil bilhetes já vendidos, que até impressionaram o director da companhia…

Enfim, a verdade é que perante o sucesso já conseguido, mesmo antes da estreia… “Cavalia já conquistou Lisboa”, lembram-se do título?... e Lisboa por enquanto só viu números e tendas de oleado… pois se, mesmo assim, já é o sucesso que se vê… deixo a questão, se será mesmo preciso levá-lo à cena… Se não poderíamos ficar só por este delicioso suspense, este maravilhoso basbaquismo…?



Outro que se estreia ...

“Filme baseado em obra de José Saramago dá polémica nos Estados Unidos.”

É o ante-título, no 24 Horas. Depois em letra maior: “Protestos contra "Ensaio sobre a Cegueira" – porque é disso que se trata. Do filme do brasileiro Fernando Meirelles com Julian Moore, que há de estrear em Portugal lá para 13 de Novembro, mas que, antes disso, amanhã mesmo, estreia nos Estados Unidos da América do Norte.

E é essa estreia que está a dar polémica.

Polémica entre os invisuais – escreve o jornal. A Federação Nacional dos Invisuais dos Estados Unidos está a preparar um protesto contra o filme, porque, alegadamente, trata as pessoas cegas como monstros e isso é mentira. Disse Marc Maurer, o presidente da federação à Associated Press. Disse que “a cegueira não transforma as pessoas decentes em monstros”. Terá ainda acrescentado que o filme “não é uma alegoria muito inteligente para falar sobre o colapso da sociedade”. Os estúdios já lamentaram esta reacção e o anunciado protesto. Defenderam-se dizendo que o realizador teve a preocupação de respeitar a história original de Saramago. E o que a história original conta, em traços largos, é sobre uma estranha epidemia de cegueira branca, que gera o caos no seio de uma comunidade e leva o instinto de sobrevivência a opor-se à civilização.

Ora, para a Federação Nacional dos Invisuais dos Estados Unidos, estamos aqui perante um manifesto evidente. O de que a cegueira transforma as pessoas decentes em monstros. O que é uma rotunda mentira.

Claro que Saramago podia ter escolhido outro exemplo para ilustrar a parábola. Poderia ter-se recorrido dos surdos, por exemplo. Uma sociedade surda aos avisos gritantes, que lhe anunciam a barbárie e o fim da civilização, tal como a conhecíamos.

Mas, aí teríamos, nesta mesma lógica, uma qualquer associação de deficientes auditivos a reclamar…

Poderia Saramago ter usado a imagem de um louco. Um misterioso surto de loucura varrendo as cidades e semeando o caos nas nações… Mas aí, outros se ergueriam em protesto igualmente legítimo e em defesa dos psiquiatricamente loucos, dos alienados a sério, com diagnóstico feito e ficha clínica…

E depois poderia também, José Saramago, ter escrito um Ensaio sobre a Estupidez…

O quem em verdade e bom rigor não iria mexer muito com o essencial da história. Em vez de um surto de cegueira … uma pandemia de estupidez. Para todos os efeitos práticos, iria dar rigorosamente ao mesmo… a estupidez conduzindo as massas para o precipício, para o caos, para a morte. Estou mesmo em crer que só um cego é que não vê, que se lhe chamássemos Ensaio sobre a Estupidez, a moral da história mantinha-se intacta.

Seja como for, o filme estreia amanhã em 75 salas de 21 estados unidos da América do Norte.

Até lá, deixo-vos um provérbio chinês: Quando o sábio aponta para a Lua, o idiota olha-lhe para o dedo.

os tempos vão difíceis.

A casa já tem mais de cem anos de porta aberta, mas os tempos vão difíceis. Este Mercado de S. João, em Braga, sobreviveu à crise da 2ª Guerra Mundial, mas treme agora perante o avanço das grandes superfícies, que ameaçam de extinção o comércio tradicional. Mas vamos ao que importa. No Mercado de S. João, em Braga, a especialidade é o bacalhau. Sempre foi. Mas agora, reclama o actual dono, estamos no tempo do sem qualidade, verde, de secagem insuficiente, que se vende barato nos supermercados. Um insulto. Um ultraje àquele que já foi considerado o recurso dos mais pobres. Tempo houve em que, quem não tinha mais nada, tinha sempre e pelo menos uma postinha de bacalhau para coser. Tempo houve. Hoje os tempos são definitivamente outros e para repor alguma justiça e devolver alguma dignidade ao fiel amigo, o Mercado de S. João de Braga vende bacalhau pela Internet. Bacalhau do bom, garantem. Nada a ver com esse tal outro mal seco e esverdeado. Desde que o site foi criado, há 3 anos, já recebeu 9 mil visitas. Recebem encomendas de todo o mundo. Mails de muitos emigrantes fazendo encomenda. Acontece que muitas delas acabam retidas nas fronteiras dos países para onde são expedidas, mas quanto a isso, o proprietário do negócio diz que não pode fazer nada. Os clientes ficam por sua conta e risco quanto a esse pormenor. Quer dizer, quanto a isso, batatas.

E saltemos agora para o Correio da Manhã. Já quase em fecho de edição, o jornal publica esta breve e sublime notícia. Rádio Sim. Diz o título. E aqui não se trata de nenhuma afirmação, ou manifesto de intenções. Rádio Sim é mesmo o nome da nova Rádio que ora se anuncia. E anuncia-se como a primeira Rádio dedicada a pessoas com mais de 55 anos. Comecemos por anotar este pormenor fundamental. Para maiores de 55 anos. Não maiores de 50, ou de 65 anos, que é a idade da reforma. Não é portanto uma Rádio para reformados, nem uma Rádio para os que venceram a barreira dos 50. Enfim, 50 sempre é metade de cem e o número cem conserva uma certa mística muito própria e conveniente, para, por exemplo, centenários e coisas assim. Portanto esta Rádio Sim distingue-se à partida de qualquer outra que exista ou venha a existir dirigida a auditórios de 50 anos, ou já na reforma. Esta Rádio Sim é só para quem tem mais de 55 anos. Claro que, assim sendo, os de 65 anos estão incluídos. O que já não acontece, obviamente com os de 50, já que 50, como se sabe é menos de 55.

Esta Rádio Sim emite em duas frequências, a partir de Lisboa e Évora e a partir deste mês, também. A directora de programação desta nova Rádio diz que o programa da manhã vai ser de informação e opinião. E ora aqui está a primeira grande inovação! Informação e opinião logo de manhã. Coisa de que a Rádio portuguesa bem precisada estava. Enfim, se há que começar por algum lado, comecemos pelos ouvintes de 55 anos. Servem de cobaia. Se a ideia pegar, a de abrir as manhãs da Rádio com informação e opinião, pode ser que o modelo se abra depois a auditórios mais vastos e diversificados. Porque eles são muito diversificados, os auditórios de Rádio. Por isso ele há Rádios dirigidas a públicos específicos. Desta já vimos. É para maiores de 55 anos. Mas há as Rádios jovens, só para jovens, há as eruditas e as ditas clássicas, as que só passam jazz, as que só passam fado… o mesmo para as Televisões que só passam desporto, só passam documentários de viagens ou de descobertas científicas e outras… enfim, a Comunicação Social especializa-se e dispara tiros cirúrgicos ao público alvo.

E é nesse sentido que saudamos o nascimento da Rádio Sim. Sim, decerto. Claro que sim. Ficamos entretanto à espera de uma Rádio para maiores de 65 anos, mas com espírito jovem. Uma outra para os que gostam de ópera e futebol de salão ao mesmo tempo. Outra para os que gostam de futebol de salão, mas preferem o jazz. Mais uma para os jovens, mas daqueles de quem se diz que pareces um velho, pá, valha-te deus e gostam de fado e crónicas de viagem. E mais uma para os jovens, mas daqueles de quem se diz pareces um velho, pá, valha-te deus e gostam de pingue-pongue e fado vadio e… e o horizonte é vasto e o disparate é o limite. Mais uma rádio para os que só ouvem rádio entre o meio-dia e as 4 da tarde e mais uma para os que não ouvem rádio e uma última para os que não ouvem de todo. Nem rádio nem coisa nenhuma, os chamados surdos.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

(chamemos-lhe assim, que é mais prático)

Vem no “Público” e em página inteira.

Em ante-título explica-se que, na generalidade dos casos, é o director geral dos impostos quem permite o acesso às contas.

Em letra maior, adianta-se depois que, no caso das contas dos advogados, é precisa uma autorização judicial, para que se levante o sigilo bancário.

Ora, não está aqui em questão saber que direito terá a Direcção Geral de Contribuições e Impostos para investigar as contas e os movimentos bancários de cada um. Há casos em que esse procedimento é necessário e justificado. Casos que respeitam entretanto uns quantos requisitos prévios e bem explícitos. O que acontece é que - segundo a notícia - o Supremo Tribunal Administrativo considera que, sempre que um advogado invoque o segredo profissional, o fisco fica impedido de levantar o sigilo bancário de forma administrativa. Mais que isso, considera que a Direcção Geral de Contribuições e Impostos não tem competência para decidir sobre o que é, ou deixa de ser segredo profissional.

Assim sendo, o Fisco (chamemos-lhe assim, que é mais prático) o Fisco só pode aceder às contas bancárias dos advogados, para confirmar, por exemplo, as declarações de rendimentos, depois dos tribunais verificarem que essa consulta não põe em causa o segredo profissional, a que os advogados estão sujeitos.

O jornal evoca um caso concreto, passado em Agosto, quando o Supremo Tribunal Administrativo acabou por dar razão ao queixoso – um advogado – e recusou o recurso interposto pelo próprio director geral dos impostos. Azevedo Pereira tinha interposto o recurso, depois do Tribunal Administrativo e Fiscal de Loulé ter decidido que a conta bancária desse advogado não podia ser divulgada, por razões de segredo profissional.

Na altura, Azevedo Pereira argumentou que apenas se pretendia consultar “os extractos bancários e os documentos que os suportam, os quais não são susceptíveis de revelar qualquer informação sigilosa relativamente ao negócio do cliente que consta, designadamente, dos recibos emitidos pelos advogados pelos serviços que prestam” – acabámos de citar.

Continua o “Público”, dizendo que o Supremo defende a tese contrária. A de que “há um regime diferenciado quando o acesso à informação está protegido pelo sigilo profissional, ou qualquer outro dever de sigilo e quando apenas esteja em causa o sigilo bancário.

Neste caso, o do sigilo profissional, é mesmo precisa a autorização judicial expressa.

E passemos de novo ao discurso directo. Do acórdão do Supremo o jornal sublinha esta passagem: "tendo, o ora recorrido, alegado que não poderia disponibilizar as contas bancárias, porque nas mesmas existiriam movimentos cobertos pelo sigilo profissional, não se revelaria admissível, que a administração tributária, não especialmente vocacionada para a ponderação do complexo de valores e direitos envolvidos, tivesse a possibilidade de derrogar administrativamente a protecção conferida por esse dever de sigilo, sem prévia sindicância judicial.” Citàmos.

Ora bem! Segredos todas as profissões os têm e algumas bem ciosas deles o são! Desde as cozinheiras, que guardam a sete chaves o segredo, por exemplo de um bom bacalhau à Brás , ou do molho das francezinhas, até… por aí fora.

No caso concreto dos advogados, a questão é obviamente outra e percebe-se que a discrição, o segredo mesmo, sejam a alma do negócio, ou pelo menos, uma recorrente ferramenta de trabalho. Percebe-se. Como, com um pequeno esforço, ou se calhar só com um pouco mais de informação, também acabaremos por perceber, porque é que o sigilo profissional dos advogados os obriga a reagir como um vulgar narcotraficante que, este por razões óbvias, também poderá invocar o segredo profissional, para se recusar a divulgar extractos e movimentos bancários. “É que era só mesmo o que mais faltava!” – isto era já o narco traficante a falar…

E já lhe chamam “Lisboagate” e todos os jornais de hoje falam disso.

Já houve devoluções voluntárias. 18 casas foram já devolvidas à Câmara de Lisboa.

Falamos claro do caso das casas camarárias, alugadas a baixo custo a pessoas que alegadamente teriam possibilidades financeiras para pagar uma renda normal.

Há vários dirigentes da Câmara de Lisboa nessa situação e ontem mesmo António Costa garantiu que todos esses casos serão analisados e corrigidos a seu tempo. Mas foi ontem também, que Sara Brito, vereadora, falou à comunicação social, para explicar e defender o seu caso concreto.

E o caso concreto de Sara Brito , segundo a própria, foi que recebeu a casa de Kruz Abecassis em 87. Na altura era vereadora da Acção Social e que por isso não havia impedimento legal para o fazer. Não havia – segundo a própria – problema ético. E não havia porque, sendo vereadora da Acção Social, o problema ético só se punha se a casa fosse de habitação social. O que não era o caso e o que também quer dizer que se não era habitação social, seria de qualidade um bocadinho superior. Eventualmente… Aí viveu durante 20 anos, até ao fim do ano passado, quando ocupou o pelouro da habitação. Então sim, havia um impedimento legal e a vereadora entregou a casa de volta à Câmara. Diz que não podia ser inquilina e senhoria ao mesmo tempo, o que aconteceria se continuasse a viver no apartamento da rua do Salitre, sendo vereadora da habitação. Esse foi o argumento – segundo as palavras da própria: “Iria criar uma complicação.”

Os jornais garantem entretanto que, para além de figuras mais ou menos conhecidas da vida pública portuguesa, há também sedes de partidos, que pagam à Câmara de Lisboa rendas que chegam aos 5 euros por mês.

Mas voltemos rapidamente a Sara Brito e só por uma outra razão quase paralela.

A autarca diz que nunca viveu clandestina e que por isso não se sente culpada, nem com razões para se demitir. Sempre pagou as rendas que lhe foram pedidas, incluindo as respectivas actualizações. Portanto legalmente já vimos que parece que está tudo bem e eticamente, pelo menos para a vereadora, também.

Agora o que se passa é que os jornais – o “Público”, por exemplo – puxa para título esta frase espantosa: “Vereadora que pagava 146 euros de renda à Câmara de Lisboa recebe reforma de 3350 euros.”

Esta é que é a grande surpresa! Um funcionário do Estado na reforma – e para o caso nem interessa se a reforma é folgadita ou não… é a que se lhe deve, certamente… - mas , para todos os efeitos, temos um funcionário público reformado que continua a trabalhar , no caso, na mesma função pública. Enfim, a verdade é que a notícia não explica muito bem se a reforma é da função pública, ou de uma qualquer anterior profissão que Sara Brito tenha exercido; há 20 anos, ou mais; enfim, antes de trabalhar na Câmara de Lisboa. Isso, não consegui perceber bem, mas o que é evidente é que – casas da Câmara aparte - Sara Brito está reformada e continua a trabalhar. E na função pública.

Ético deve ser, mas será legal?