segunda-feira, 6 de março de 2006
domingo, 5 de março de 2006
sábado, 4 de março de 2006
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«O mais difícil é o que está por fazer», afirma José Sócrates ao ser questionado sobre os sacrifícios que vai pedir aos portugueses. Em entrevista ao EXPRESSO, o primeiro-ministro mostra-se, porém, optimista sobre a coabitação com o novo inquilino de Belém
"Primeiro-ministro considera que "o mais difícil é o que está para vir"
O primeiro-ministro considera que os objectivos e medidas mais difíceis ainda estão por vir, como disse em entrevista hoje publicada pelo "Expresso", na qual reafirma querer reduzir este ano o défice de seis para 4,8 por cento.
O primeiro-ministro considera que os objectivos e medidas mais difíceis ainda estão por vir, como disse em entrevista hoje publicada pelo "Expresso", na qual reafirma querer reduzir este ano o défice de seis para 4,8 por cento.
(público 4março06)

O OPTIMISMO DE MÃOS NOS BOLSOS !!!?!!!
(e já viram pose mais optimista?...)
...p'ra optimismo, optimismo e meio; tire lá as mãozinhas dos bolsos e reduza mas é essa merda para os zero %. coisa d'homem, optimismo a sério, sem anestesia nem rodriguinhos pindéricos! mostre lá aos mariconsos de bruxelas, que portugal ainda é um país de gente brava e destemida!
...assim como assim, "dificuldades" já nós estamos acostumados a esperar...
quarta-feira, 1 de março de 2006
Por isso não ouviu o tiro, nem o grito, nem o baque seco e desconjuntado do corpo a cair.
Foi só quando desligou o aspirador que estranhou o silêncio.
O próprio canário tinha parado de cantar, encavalitado, muito direito, no poleiro da gaiola.
E, se isso fosse possível, parecia que o silêncio vinha justamente do quarto de dormir.
Daí, precisamente.
Endireitou-se, segurando caído, ainda na mão, o tubo do aspirador.
Endireitou-se, segurando caído, ainda na mão, o tubo do aspirador.
Rosto afogueado e perplexo. O suor brilhando no pescoço.
Visto assim, parecia quase o Exterminador Implacável.
Visto assim, parecia quase o Exterminador Implacável.

tens a certeza
diz-me lá tens a certeza
tens a certeza que é mesmo isso que queres
tens a certeza
diz mas diz-me com franqueza
comer com as mãos
tens a certeza sem talheres
tens a certeza
que é com as mãos
a sopa e tudo
e o esparguete
a omoleta o pudim flan
sentas-te à mesa
e a comer é uma tristeza
nem parece
que és filho da tua irmã
diz-me lá tens a certeza
tens a certeza que é mesmo isso que queres
tens a certeza
diz mas diz-me com franqueza
comer com as mãos
tens a certeza sem talheres
tens a certeza
que é com as mãos
a sopa e tudo
e o esparguete
a omoleta o pudim flan
sentas-te à mesa
e a comer é uma tristeza
nem parece
que és filho da tua irmã

NÃO SÃO AS COISAS SÓ O QUE PARECEM
NEM TUDO O QUE PARECEM ELAS SÃO
E NESSA CONDIÇÃO É QUE ELAS TECEM
POR VEZES UMA CERTA CONFUSÃO
HÁ COISAS QUE DE SIMPLES COMPLICADAS
SE TORNAM NESSA PRESSA DE DIZER
HÁ COISAS QUE NEM DITAS NEM EXPLICADAS
COISAS QUE SÓ VISTO FAZEM CRER
HÁ COISAS QUE SE DIZEM EM SEGREDO
HÁ COISAS QUE NÃO SE PODEM DIZER
HÁ COISAS QU’EM SILÊNCIO METEM MEDO
SEGREDOS QUE DITOS FAZEM TREMER
DIZER QUE A MORTE CHEGA SEMPRE CEDO
DIZER QUE O AMOR É TRISTE VÊ-LO MORRER
NEM TUDO O QUE PARECEM ELAS SÃO
E NESSA CONDIÇÃO É QUE ELAS TECEM
POR VEZES UMA CERTA CONFUSÃO
HÁ COISAS QUE DE SIMPLES COMPLICADAS
SE TORNAM NESSA PRESSA DE DIZER
HÁ COISAS QUE NEM DITAS NEM EXPLICADAS
COISAS QUE SÓ VISTO FAZEM CRER
HÁ COISAS QUE SE DIZEM EM SEGREDO
HÁ COISAS QUE NÃO SE PODEM DIZER
HÁ COISAS QU’EM SILÊNCIO METEM MEDO
SEGREDOS QUE DITOS FAZEM TREMER
DIZER QUE A MORTE CHEGA SEMPRE CEDO
DIZER QUE O AMOR É TRISTE VÊ-LO MORRER

As iscas
Eu quero sentir a sensação das iscas
ao mergulhar no óleo que ferve na frigideira!
Eu quero sofrer, mirrar como elas
o que elas sofrem e mirram!
Quero ser o óleo que ferve
e a frigideira que o contém,
quero ser o fogo que ferve o óleo
que frita as iscas!
Quero e não quero,
eu sou o que já não sou,
eu digo o que já não digo!
Eu quero não ser,
não dizer,
não querer,
não, não, queijo, queijo,
queijo não,
eu quero é iscas!
Eu quero ser o dente que morde o pão!
Eu quero ser o pão e o dente que o trinca!
E quero ser o homem que trinca o pão,
eu quero ser o momento
em que o homem ferra o dente sobre o pão
e sobre a isca
e sobretudo
se for de Inverno
e mesmo que esteja frio
e os barcos fiquem no rio,
parados, sem navegar,
eu quero ser o Rossio,
a Graça, o Lumiar,
o sítio onde houver a tasca.
Eu quero ser a tasca
e o homem que nela entra
e pede uma isca no pão!
E quero ser a isca e o pão!
E o acto de fritar, de partir, de mastigar,
de engolir, de digerir, de defecar !
Eu quero ser a alegria, a satisfação,
a plenitude angélica desse homem
que come a isca no pão !
Quero ser esse Zen, essa ventura,
ou mesmo a azia do óleo da fritura !
Quero ser tudo a um tempo,
a azia da isca e o prazer,
a plenitude e o fígado fodido e o copito de branco e o arroto
e a nota amarrotada sobre o balcão
e o troco e o bolso
onde esse troco for guardado !
E quero sentir a sensação
das moedas de vinte e cinco tostões a tilintar !
Eu quero ser os atacadores do sapato
do homem que come a isca !
Eu quero ser o fado Hilário !
Eu quero ser tudo ao contrário
e ser a isca e comer um homem à dentada,
e ser pão e comer uma frigideira à dentada,
e ser óleo e fritar moedas
de vinte e cinco tostões à dentada !
HOP LÁ HEI HOP EIA !
UPA HIP HOP HUPA !
Eu sou o cruzamento de todas as linhas !
Eu sou eu !
Eu sou um dos meus muitos outros !
Eu sou o que ainda foi !
E quando morrer, quero ser enterrado com batatas!
Eu quero sentir a sensação das iscas
ao mergulhar no óleo que ferve na frigideira!
Eu quero sofrer, mirrar como elas
o que elas sofrem e mirram!
Quero ser o óleo que ferve
e a frigideira que o contém,
quero ser o fogo que ferve o óleo
que frita as iscas!
Quero e não quero,
eu sou o que já não sou,
eu digo o que já não digo!
Eu quero não ser,
não dizer,
não querer,
não, não, queijo, queijo,
queijo não,
eu quero é iscas!
Eu quero ser o dente que morde o pão!
Eu quero ser o pão e o dente que o trinca!
E quero ser o homem que trinca o pão,
eu quero ser o momento
em que o homem ferra o dente sobre o pão
e sobre a isca
e sobretudo
se for de Inverno
e mesmo que esteja frio
e os barcos fiquem no rio,
parados, sem navegar,
eu quero ser o Rossio,
a Graça, o Lumiar,
o sítio onde houver a tasca.
Eu quero ser a tasca
e o homem que nela entra
e pede uma isca no pão!
E quero ser a isca e o pão!
E o acto de fritar, de partir, de mastigar,
de engolir, de digerir, de defecar !
Eu quero ser a alegria, a satisfação,
a plenitude angélica desse homem
que come a isca no pão !
Quero ser esse Zen, essa ventura,
ou mesmo a azia do óleo da fritura !
Quero ser tudo a um tempo,
a azia da isca e o prazer,
a plenitude e o fígado fodido e o copito de branco e o arroto
e a nota amarrotada sobre o balcão
e o troco e o bolso
onde esse troco for guardado !
E quero sentir a sensação
das moedas de vinte e cinco tostões a tilintar !
Eu quero ser os atacadores do sapato
do homem que come a isca !
Eu quero ser o fado Hilário !
Eu quero ser tudo ao contrário
e ser a isca e comer um homem à dentada,
e ser pão e comer uma frigideira à dentada,
e ser óleo e fritar moedas
de vinte e cinco tostões à dentada !
HOP LÁ HEI HOP EIA !
UPA HIP HOP HUPA !
Eu sou o cruzamento de todas as linhas !
Eu sou eu !
Eu sou um dos meus muitos outros !
Eu sou o que ainda foi !
E quando morrer, quero ser enterrado com batatas!

Sentimento de um acidentado
Nas nossas ruas aos anoiteceres
Há tal melancolia e um tal ar de enterro
Que mesmo o eléctrico para os Prazeres
Mais parece o autocarro para o Desterro
De flanela quereria eu as pantufas
Que teus níveos pés aqueceriam, oh,
De flanela suave e quente, doce Etelvina,
Daquelas todas forradas de pelo, oh!
Para não te ver assim enregelada
A tiritar, batendo o dente, coitadinha,
Sujeita a ficares, quem sabe, constipada,
Ou até a apanhar uma gripe, oh alma minha!
Gentil te deporia as tais pantufas
Que teus pés aqueceriam a teus pés
E nesse gesto com ele o meu coração,
Dona do qual há muito tempo já tu és.
E nelas teus níveos cujos tão pequenos
Abrigarias do frio que gela, oh,
E eu me sentiria do mal o menos
O mais feliz dos mortais, o menos só.
Uma palavra tua, um gesto teu,
Um assomar que fosse a essa janela
E logo louco viria a correr eu
Trazer-te umas pantufas de flanela.
Mas não, cruel ingrata, oh, tirania,
Ateimas em negar-me essa ventura.
Queira Deus, apanhes uma pneumonia
Que te leve a arder em febre à sepultura!

...Claro que, quando o bolo chegava ao fim e a fava não aparecia a mais ninguém, toda a gente percebia que já tinha sido comida, discretamente entre uma geropiga e uma casquinha de abóbora cristalizada. Já tinha sido comida e por quem?...
O problema é que, com a idade – que ela sempre foi assim, ao que parece – com a idade, os dentes foram-lhe faltando e uma vez foi o diabo, que a senhora engasgou-se mesmo a sério... uma aflição mesmo.
A tua avó – disse-lhe eu – o espirito do natal ainda acaba por matar a tua avó !
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2006

E LÁ VAI O ZÉ MEDALHAS
POR ESSA’STRADA DE DEUS
NÃO N’AS QUER POR ISSO DÁ-LHAS
P’RA QUEM TEM MÉRITOS SEUS
POR ESSA’STRADA DE DEUS
NÃO N’AS QUER POR ISSO DÁ-LHAS
P’RA QUEM TEM MÉRITOS SEUS
FURACÕES E PASSARINHOS
CONSTIPADOS E A ESPIRRAR
ARDE A MATA E OS CAMINHOS
CAI A PONTE E AO JANTAR
LIGAS O TELEJORNAL
E FICAS MAIS DESCANSADO
PARECE QUE AFINAL
TEMOS TUDO CONTROLADO
NA TERRA DO ZÉ MEDALHAS
HÁ COM CADA MEDALHADO
QUE SÓ VISTO SE ACREDITA
QUE SÓ VISTO NEM CONTADO
NESTA TERRA ABENÇOADA
DE HEROINAS E HERÓIS
HÁ UMA MEDALHA GUARDADA
‘TÉ P’RÓ ZÉ-ZÉ DOS ANZÓIS
E ESTA TERRA BEM MERECE
UMA MEDALHA A PRECEITO
UMA PALMADA NAS COSTAS
UMA COMENDA NO PEITO
A TERRA DA BRAVA GENTE
QUE DA CAUDA DA EUROPA
‘TÉ AO PELOTÃO DA FRENTE
A TODOS VAI DANDO SOPA
OH MEDALHINHA TÃO BELA
TOMA LÁ QUE DÁ O ZÉ
AJEITA-A BEM NA LAPELA
COM A MÃO QUE FOR MAIS AO PÉ
sábado, 25 de fevereiro de 2006
...e já agora que se fala de vidências e proféticos segredos, fiquem-se com esta, tirada de S. Malaquias.
Nascido na Irlanda entre o final do século XI e início do século XII, São Malaquias foi primaz da Irlanda. Por volta do ano de 1138, em sua ida à Roma para visitar o Papa Inocêncio II, Malaquias teve a visão da sucessão de todos os papas, num total de 112, até o julgamento final do mundo. São Malaquias documentou sua visão e a entregou ao Papa. Faleceu em 1148, e em 1190 foi canonizado pelo Papa Clemente III.
“Na última perseguição da sagrada Igreja Romana reinará Pedro Romano que apascentará suas ovelhas entre muitas tribulações; passadas as quais, a cidade das sete colinas será destruída, e o juiz tremendo julgará o povo”.
Quero, com isto, deixar a pergunta: Será que o Malaquias da profecia estava a prever que Lisboa estava destinada a ir com os porcos, um destes dias?
Virá um pouco desfazado já no tempo, mas quando se trata da Eternidade, o Tempo é coisa de somenos importância. Adiante.
Ora o que se passa é que fiquei quase ofendido, com o Carnaval Funesto a que todas as televisões do meu País se renderam, com a transladação dos, assim chamados, "restos mortais" da srª d. Lúcia, do carmelo de Coimbra p'rò Joelhódromo de Fátima ( o neologismo não é meu - honra lhe seja feita, ao meu ex colega JPG).
Num Estado laico, como o nosso se reclama, acho uma coisa abusiva e despropositada.
E se tinha de o dizer, dito fica.
p.s. - vai em azul celeste, em memória da defunta infanta...
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006
87. Concedemos o Livro a Moisés, e depois dele enviamos muitos mensageiros, e concedemos a Jesus, filho de Maria, as evidências, e o fortalecemos com o Espírito da Santidade. Cada vez que vos era apresentado um mensageiro, contrário aos vossos interesses, vós vos ensoberbecíeis! Desmentíeis uns e assassináveis outros
Mais do que a paneleiragem que andou a mamar broches e a comer os putos da Casa Pia, o que me mete mesmo nojo é esta Justiça Pederasta que permite fenómenos como o que estamos a assistir neste momento, com o processo a ser, uma vez mais congelado, por artes e manhas dessa corja de advogados envolvida no processo. Isto sim, é que é o verdadeiro Escândalo da Casa Pia.
E se tinha de o dizer, dito fica.
E se tinha de o dizer, dito fica.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006
terça-feira, 21 de fevereiro de 2006
O EMPREGO DA CÂMARA DE AR DE AUTOMÓVEL
PARA POUPAR A SOLA DAS BOTAS
Um bocado de câmara de ar de automóvel (dos que só servem para remendos) se não estiver requeimado pelo uso ou pelo calor, póde durar, colado sôbre a sola das botas, mais dum ano, ao passo que a duração média da sola das botas é de um ou dois meses.
A ecónomia obtida não é só da sola, é de toda a bota, porque de cada vez que uma bota é solada, o meter-lhe a fôrma, coser, pregar etc. vai arruinando a bota rápidamente.
PROCESSO
Talham-se com uma tesoura meias solas num bocado de câmara de ar de automóvel.
Raspa-se bem raspada a sola das botas, com um vidro ou raspadeira própria, até que a sola fique perfeitamente aveludada, sem partes lisas ou polidas, e dá-se uma lixadela. Lixa-se, ou melhor, com uma groza de sapateiro ou mesmo de carpinteiro, lima-se bem a parte da câmara de ar que há-de assentar sôbre a sola, de maneira a tirar-lhe tambem todo o polido, e ficar áspera.
Lava-se com gazolina tanto a sola como a câmara de ar.
Feito isto, estendem-se bem sôbre a sola sucessivas camadas de cola de borracha, aplicando cada nova camada só depois de sêca a anterior, até que a camada sêca tenha a aparência de polimento, sinal de que a sola está completamente revestida de borracha.
Preparam-se ao mesmo tempo as meias solas de borracha, estendendo-lhe tambem algumas camadas da mesma cola.
Deixa-se tudo a secar umas horas, mesmo dum dia para o outro, e depois aplicam-se as borrachas sôbre as solas das botas, de maneira que não fiquem bolhas de ar entre uma e outra; feito isto bate-se com um martelo para aderir bem a borracha á sola.
Apara-se com uma tesoura a boracha que exceder a sola, e alisa-se o córte á volta com um bocado de lixa colada numa tábua.
Póde calçar-se imediatamente.
É necessário cuidado ao assentar a borracha sôbre a sola, porque logo que toquem uma na outra aderem de tal maneira que já não se podem deslocar.
Aos saltos é que não se pode aplicar a câmara de ar por que se corta rápidamente, mas póde pregar-se-lhe um bocado de protector (pneu) ou então os protectores de ferro ou borracha.
A cola vende-se em bisnagas nas garages; em latas de quilo, meio quilo e quarto nas lojas de sola.
Eu costumo prepará-la em casa; mando vir de Lisboa ou do Porto, da Companhia da Borracha, 50 gramas de borracha virgem, dissolvo-a com gazolina e tenho cola para muitas aplicações.
in: "Como eu luto contra a carestia de vida" de Ricardo Freire dos Reis, Major de Infantaria. Coimbra /França & Arménio, Editores - 1920

& lançando os olhos p'rò altíssimo
muito p'r'além das estrêlas
vejo deus em toda a sua magnânime & extra brilhante maravilha
piscando-me o olho
um pequenino olho sacana
um pequenino olho vermelho
da cor exacta de quem já bebeu um copo a mais
& digo
pai meu pai
meu deus todo poderoso
que se foda a taça & bebamos
enjorquemo-nos pois à tua glória
o teu sangue redentor que jorre em cascata
em remissão dos nossos pecados mortais
directo p'las nossas goelas mortais
& sequiosas de vida eterna
pai meu pai
deus de todos os meus vícios
tu que tudo podes
decerto também pecas
tanto ou mais que eu
senão não serias deus
nem eu te poderia
não nunca jamais
adorar assim desta maneira
desesperada e sôfrega
com esta loucura com que te adoro
pai meu pai
tu que tudo sabes
só tu poderás alguma vez entender
esta minha asfixiante metafísica
pai meu pai
perdoa-me eu nunca te ter perdoado
mas tu
pai meu pai
perdoa poe perdoa blake
perdoa ginsberg
perdoa whitman
& o diabo ele próprio
& todos
todos todos
todos os pobres diabos
os poetas bêbados &
todos os teus amigos &
todos os meus amigos
de quem só eu posso ser amigo
porque mais ninguém os grama verdadeiramente
& LMFG & ALG &
VAM~VAM & VLS &
os amigos dos meus amigos &
os amigos dos amigos deles
& se puderes todos os outros
todos mesmo os que eu não gramo
vá lá vá lá
que eu também podia ser santo se tu quisesses
& vá lá vá lá
perdoa-me a mim também
a mim que de certo modo
até me estou cagando p'ra ti
p'rò teu perdão
& p'rà tua familia toda
& amén
se for possivel...
a mim que de certo modo
até me estou cagando p'ra ti
p'rò teu perdão
& p'rà tua familia toda
& amén
se for possivel...

I:
Sonhavas uma estrela peregrina
Uma clareira no meio da noite
O canto cristalino da guitarra
Uma cama de folhas e silêncio
E adoraste o fogo das palavras
Desafiaste o Tempo e seus mistérios
Meteste por desvios a horas mortas
Adormeceste em becos sem saída
Sonhavas uma estrada sem regresso
Súbita de pontes e surpresas
A vastidão serena dos desertos
A tranquila majestade das falésias
E a cada coisa que tocavas
Davas-lhe outro nome outro sentido
Era esse o teu tesouro o que tocavas
Em ouro se tornava o teu segredo
II:
Rasgaste numa noite a tua vida
Em gestos lentos todas as memórias
Num ritual de lágrimas contidas
Espalhaste assim ao vento a tua história
E o vento as misturou num rodopio
De frases sem sentido e de imagens
E o vento as arrastou por esse rio
De esquecimento p’ra outras paisagens
III:
Deve haver decerto qualquer coisa
Coisa que nem sempre é evidente
que se escreve a si própria qualquer coisa
Que apenas se insinua se pressente
Qualquer coisa que antes de ser dita
Já traz em si a razão verdadeira
Talvez nem eu a entenda mesmo escrita
Mas não podia ser de outra maneira
P’ra que serve dizes tu isso que escreves
Essa prosa em delírios alinhada
Coisas estranhas que nem tu próprio percebes
Para nada ora aí está mesmo p’ra nada
Sonhavas uma estrela peregrina
Uma clareira no meio da noite
O canto cristalino da guitarra
Uma cama de folhas e silêncio
E adoraste o fogo das palavras
Desafiaste o Tempo e seus mistérios
Meteste por desvios a horas mortas
Adormeceste em becos sem saída
Sonhavas uma estrada sem regresso
Súbita de pontes e surpresas
A vastidão serena dos desertos
A tranquila majestade das falésias
E a cada coisa que tocavas
Davas-lhe outro nome outro sentido
Era esse o teu tesouro o que tocavas
Em ouro se tornava o teu segredo
II:
Rasgaste numa noite a tua vida
Em gestos lentos todas as memórias
Num ritual de lágrimas contidas
Espalhaste assim ao vento a tua história
E o vento as misturou num rodopio
De frases sem sentido e de imagens
E o vento as arrastou por esse rio
De esquecimento p’ra outras paisagens
III:
Deve haver decerto qualquer coisa
Coisa que nem sempre é evidente
que se escreve a si própria qualquer coisa
Que apenas se insinua se pressente
Qualquer coisa que antes de ser dita
Já traz em si a razão verdadeira
Talvez nem eu a entenda mesmo escrita
Mas não podia ser de outra maneira
P’ra que serve dizes tu isso que escreves
Essa prosa em delírios alinhada
Coisas estranhas que nem tu próprio percebes
Para nada ora aí está mesmo p’ra nada
Suspenseo suspense suspenso sustém o tenso
suspeito sujeito de rosa branca ao peito
- range perto a porta surda -
- tange o sino pequenino -
calafrio sinistro frio do mocho coxo
voo cego do morcego
- desembucha feia bruxa! -
- corro fujo trapo sujo -
cheio de medo o arvoredo
cerra ferra a negra perra
- corro morro alho porro -
- salto muros e quintais -
suando suo suor suado
luzem luzes por todo o lado
- pés de chumbo que me afundo -
- ai meu deus é o fim do mundo! -
quais suspense
converseta
se perco esta
camioneta
só tenho outra
às oito e meia
e se calhar
já vem cheia
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006
Tu eras como a hera no quintal
Trepando plas paredes do meu ser
Enchendo-me de gosma e coisa e tal
E teias d’aranha tás a ver
Tu eras a água que corria
Plas escadas da torneira do bidé
E o copo com a dentadura da tua tia
Tu eras, cada qual é o que é
Não foras tu portanto e logo pois
De rosas te encheria a boca cheia
Que graça tinha ouvir-te falar depois
Uma graça que tu nem fazes ideia

Já sei que brincas bem com as palavras
Que até brincas com o fogo e não te queimas
Agora queria ver como ficavas
Agora queria ir ao tira teimas
Já sei que sabes que eu nunca diria
Nada que magoasse ou te ofendesse
Agora queria ver como seria
Se um dia eu afinal sempre dissesse
Fazer um bom refrão tem muita arte
Pois tem toda a razão
Segunda parte
Só queria um tostão mesmo furado
Por cada vez que eu preguei no deserto
Nunca vi público mais interessado
Verdade seja dita já que é certo
Talvez seja verdade o que se diz
Que a vida tem de si que se lhe diga
Pois eu cá contas dessas nunca fiz
Nem vou contá-lo aqui numa cantiga
Fazer um bom refrão
Tem muita arte
Pois tem toda a razão
Terceira parte
E afinal no fundo e resumindo
De uma forma geral se se quiser
Pouco mais há pra dizer e já vou indo
Que era só o que tinha pra dizer
Fazer um bom refrão
É importante
Este aqui saíu-me num instante
domingo, 19 de fevereiro de 2006
Gato estúpido
De que forma estúpida gastaste
as tuas sete vidas
de que forma estúpida te foste
assim sem despedidas
de que forma estúpida cegaste
de que forma estúpida paraste
enquanto a luz crescia
para ti
e tu ali parado e tu ali
e a morte a relinchar
um tempo suspenso no tempo
o tempo de levares com o tipo em cima
estúpido gato
parece que nunca viste um automóvel
De que forma estúpida gastaste
as tuas sete vidas
de que forma estúpida te foste
assim sem despedidas
de que forma estúpida cegaste
de que forma estúpida paraste
enquanto a luz crescia
para ti
e tu ali parado e tu ali
e a morte a relinchar
um tempo suspenso no tempo
o tempo de levares com o tipo em cima
estúpido gato
parece que nunca viste um automóvel
A mancha esmagada do pássaro no passeio
No cais
A velha sereia do mar estende os braços metálicos sobre as águas
Pesa-lhe o céu
Roça-lhe os flancos a pedra gasta
Ao longo da estrada
Do outro lado da rede
A fila interminável de vagões amarelos espera que a paisagem se ponha em movimento
Metralha a chuva o vidro do táxi
O pêndulo frenético do limpa pára brisas
Soa como um alerta de pânico
Os silos silenciosos cobrem-se de pó e sujidade
Passa a mão suja
Limpando o suor da nuca
O taxista
Merda de tempo
P’rá noite vai ser pior
Que se foda
Encosto esta merda e que se foda
O vento dobra a espinha da noite
Força-a a posições dolorosas
É dela o uivo aflito
Que entra p’las janelas
Ouça
E se for assim amanhã
Encosto esta merda e que se foda
A mancha esmagada
Do pássaro no passeio
6 dez. 00
No cais
A velha sereia do mar estende os braços metálicos sobre as águas
Pesa-lhe o céu
Roça-lhe os flancos a pedra gasta
Ao longo da estrada
Do outro lado da rede
A fila interminável de vagões amarelos espera que a paisagem se ponha em movimento
Metralha a chuva o vidro do táxi
O pêndulo frenético do limpa pára brisas
Soa como um alerta de pânico
Os silos silenciosos cobrem-se de pó e sujidade
Passa a mão suja
Limpando o suor da nuca
O taxista
Merda de tempo
P’rá noite vai ser pior
Que se foda
Encosto esta merda e que se foda
O vento dobra a espinha da noite
Força-a a posições dolorosas
É dela o uivo aflito
Que entra p’las janelas
Ouça
E se for assim amanhã
Encosto esta merda e que se foda
A mancha esmagada
Do pássaro no passeio
6 dez. 00

O café do Castelo
O Cardoso teve uma trombose mas não largou o JB e até usa a boca ao lado que lhe ficou da macacoa para aberlaitar a prosa ao balcão. Peito inchado boca ao lado voz enrolada na beiça mole enquanto debita sociais caligramas d’ir ao cu. Permite-se mesmo enterrar a mão no bolso p’ra coçar os colhões e contar os trocos. O JB quente não presta mas o gajo grama. A olhar p’rá rua.
O Fernando também não se pode rir muito. É a tosse. Ortorrômbico careca calções e chinelos andar arrastado marreco saco plástico titubear de maluco. Então tá bom? Sr. Fernando! Gosto em vê-lo. Sai a porta p’ró fim da tarde saco plástico rasto de baba no ar e no chão do café.
No nosso coração há lugar p’ra todos filósofa loira cortado curto.
O Cardoso larga um sonoro Boa Tarde com a boca cheia de batatas. A gorda do balcão bate com as mamas na esquina do telefone diz ela a ruiva de costas também dei o meu grito do Ipiranha. O morenaço fanhoso vai alimentando a conversa ao mais alto nível falam de amor em geral e dos filhos em particular converseta de férias filosofia de alcofa cenas conjugais cenas que como sabeis podem ou não tornar-se obs/cenas. Depende sempre de como as conjugais...
O Cardoso teve uma trombose mas não largou o JB e até usa a boca ao lado que lhe ficou da macacoa para aberlaitar a prosa ao balcão. Peito inchado boca ao lado voz enrolada na beiça mole enquanto debita sociais caligramas d’ir ao cu. Permite-se mesmo enterrar a mão no bolso p’ra coçar os colhões e contar os trocos. O JB quente não presta mas o gajo grama. A olhar p’rá rua.
O Fernando também não se pode rir muito. É a tosse. Ortorrômbico careca calções e chinelos andar arrastado marreco saco plástico titubear de maluco. Então tá bom? Sr. Fernando! Gosto em vê-lo. Sai a porta p’ró fim da tarde saco plástico rasto de baba no ar e no chão do café.
No nosso coração há lugar p’ra todos filósofa loira cortado curto.
O Cardoso larga um sonoro Boa Tarde com a boca cheia de batatas. A gorda do balcão bate com as mamas na esquina do telefone diz ela a ruiva de costas também dei o meu grito do Ipiranha. O morenaço fanhoso vai alimentando a conversa ao mais alto nível falam de amor em geral e dos filhos em particular converseta de férias filosofia de alcofa cenas conjugais cenas que como sabeis podem ou não tornar-se obs/cenas. Depende sempre de como as conjugais...

Do autor pouco se sabe e ainda bem.
Sabe-se que nasceu, o que, a confirmar-se, explica muita coisa. Por exemplo, o ter escrito os textos que ora nos orgulhamos de apresentar ao respeitável público.
Fixemo-nos então nos textos.
Partindo de um par de dados adquiridos – e comprovados mesmo, em jogos de azar, um pouco por todo o lado e até quase do outro lado – o editor conformou-se em chamar-lhes poesia e nessa conformidade espalhá-los, em gesto de semeador, por sobre as páginas, onde – como se poderá ver – lá foram caindo de forma quase poética.
No seu vazio de conteúdo, estes textos assumem-se abertos a quase tudo, até mesmo à hora de almoço, o que, só por si, explica muita coisa, já que, como é sabido, as boas almas e os grandes espíritos não têm hora certa para almoçar.
Vivo entre as memórias e o sonhoNum mundo paralelo á realidade
Onde tudo é tão fantástico e medonho
Bom demais até p’ra ser verdade
Um mundo todo ele ao meu tamanho
Onde tudo se transforma, o que nomeio
E o medo que não digo, mas que tenho
Com um dedo se desfaz e parte ao meio
Um mundo onde o tempo tão veloz
Me leva numa dança sem sentido
Num rodopio de cores extraordinárias
Onde o silêncio escuta a minha voz
Onde o silêncio diz ao meu ouvido
As coisas mais cruéis e necessárias
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

vai discursar o 1º ministro.
a assembleia está repleta de rostos graves e atentos.
a voz off descreve o ambiente: "vai discursar o 1º ministro..." e a voz off faz uma pausa.
sobrepoem-se os dois silêncios, o da voz off e o da assembleia que espera as palavras do 1º ministro.
vai discursar o 1º ministro e quando começa, recomeça também a voz off descrevendo o 1º ministro, que "veste fato italiano, camisa de popelina, risco ao lado, gravata de seda, os sapatos, muito chique", cada gesto e inflexão de voz; a voz off chama o comentador à conversa, que explica as escolhas da ministerial farpela e o simbólico significado de cada gesto e inflexão.
o 1º ministro pára para beber água. a voz off anuncia que "o 1º ministro parou p'ra beber água". o 1º ministro bebe água. os dois silêncios sobrepoem-se, do ministro e da voz off. o 1º ministro recomeça a falar. a voz off continua no mesmo exercício anterior até às palmas finais...
"e parece que acaba de terminar o discurso em que o 1º ministro veio anunciar que... ?"
uma 3ª voz, ainda mais off completa a frase: "que vai aumentar o IRS!
"ah! (- voz off): é chique!"
terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

& às vezes olhando bem
p’ra certas coisas que faço
penso que a mim me coube
ai o papel de palhaço
ai o papel de palhaço
equilibrado num fio
suspenso sobre um abismo
ai de causar calafrio
equilibrado num fio
& lá em baixo na pista
rufam pandeiros tambores
pela morte do artista
& lá em baixo na pista
em suspenso a multidão
espera ansiosamente
vê-lo estatelar-se no chão
& em suspenso a multidão
espera p’lo passo fatal
para o poder aplaudir
numa risota geral
espera p’lo passo fatal
espera que ele dê o tal passo
que ele leve até ao fim
o seu papel de palhaço
mas ei-lo que pára a meio
levanta um pé pára de novo
& desapertando a braguilha
mija em arco sobre o povo
21 maio 84
p’ra certas coisas que faço
penso que a mim me coube
ai o papel de palhaço
ai o papel de palhaço
equilibrado num fio
suspenso sobre um abismo
ai de causar calafrio
equilibrado num fio
& lá em baixo na pista
rufam pandeiros tambores
pela morte do artista
& lá em baixo na pista
em suspenso a multidão
espera ansiosamente
vê-lo estatelar-se no chão
& em suspenso a multidão
espera p’lo passo fatal
para o poder aplaudir
numa risota geral
espera p’lo passo fatal
espera que ele dê o tal passo
que ele leve até ao fim
o seu papel de palhaço
mas ei-lo que pára a meio
levanta um pé pára de novo
& desapertando a braguilha
mija em arco sobre o povo
21 maio 84
CASAL VENTOSO #1
Não, não vi os melhores espíritos da minha geração
morrendo à fome, histéricos, nús…
Nem anjos de cabeleiras loiras adejando por sobre os telhados do Casal Ventoso.
Vi o junkie de cócoras, cagando indiferente, à beira da estrada.
E os autocarros a passar cheios de outros junkies sujos e cambaleantes.
Vi as barracas na cerca de rede.
Um amontoado de tábuas apanhadas no lixo e trapos imundos,
restos de cobertores ensopados de mijo e água da chuva.
Vi-os em fila à espera da sopa.
Vi-os espalhados pela encosta, em pequenos grupos silenciosos.
Vi-os e fizeram que não me viram,
olhos vidrados, faces macilentas, andar arrastado.
E sei que naqueles olhos nunca há-de brilhar nenhuma estrela.
Sei que naqueles olhos só a noite se adensa.
E cada vez mais.
E que nenhum clarão de génio os há-de iluminar.
Que aqueles passos nunca os hão-de levar a nenhuma clareira de nenhum bosque encantado.
Vi-os submissos esmolando a seringa,
Vi-os tartamudeando frases sem nexo -
códigos vazios de sentido -
Vi-os perseguindo a própria sombra,
definhando,
todo o corpo exalando um insuportável cheiro a morte.
Pois não, não vi os melhores espíritos da minha geração.
Ou então se os vi não dei por isso.
Não tive essa poética ventura.
Os que vi
pouco mais eram que sombras
num equilibrio de sombras
entre o brilho metálico
das avenidas, em hora de ponta.
Os que vi
escondiam-se em tocas sujas
olhos piscos
cegos pela luz do aço na lâmina dos carris.
Escondiam a nudez por entre o lixo.
Por entre o lixo escondiam a própria fome.
De sagrado só tinham a urgência de facas cortando a pele.
Feridas de outras guerras
o sangue coagulado no tempo
Um vazio cheio de restos de comida, cartão velho, televisões partidas e um enorme cheiro a merda e água dos despejos.
Foi aí que ergueram o seu trono,
aí que limitaram o seu reino,
os melhores espíritos da minha geração.
A cavalo num burro
tomaram o céu de assalto
e o céu caíu-lhes em cima da cabeça.
O céu começou a chover-lhes cabeças de burro.
O ar encheu-se de gritos.
Partiu-se-lhes a mola do tempo,
enquanto ouviam passar os comboios,
perdendo-se no túnel,
devorando as entranhas da terra…
Os melhores espíritos da minha geração
andam à rasca a mostrar o cú a ministros
ou a dar o cú ao poder sodomita.
Mas esses não são os melhores espíritos da minha geração,
nem de geração nenhuma…
mas são os que temos.
Outros perdem-se em tertúlias, estúrdias, estapafúrdias.
A esses, a família enlutada deseja rápidas melhoras.
Então, por onde é que eles andam, os melhores espíritos da minha geração?!
Não, não vi os melhores espíritos da minha geração
morrendo à fome, histéricos, nús…
Nem anjos de cabeleiras loiras adejando por sobre os telhados do Casal Ventoso.
Vi o junkie de cócoras, cagando indiferente, à beira da estrada.
E os autocarros a passar cheios de outros junkies sujos e cambaleantes.
Vi as barracas na cerca de rede.
Um amontoado de tábuas apanhadas no lixo e trapos imundos,
restos de cobertores ensopados de mijo e água da chuva.
Vi-os em fila à espera da sopa.
Vi-os espalhados pela encosta, em pequenos grupos silenciosos.
Vi-os e fizeram que não me viram,
olhos vidrados, faces macilentas, andar arrastado.
E sei que naqueles olhos nunca há-de brilhar nenhuma estrela.
Sei que naqueles olhos só a noite se adensa.
E cada vez mais.
E que nenhum clarão de génio os há-de iluminar.
Que aqueles passos nunca os hão-de levar a nenhuma clareira de nenhum bosque encantado.
Vi-os submissos esmolando a seringa,
Vi-os tartamudeando frases sem nexo -
códigos vazios de sentido -
Vi-os perseguindo a própria sombra,
definhando,
todo o corpo exalando um insuportável cheiro a morte.
Pois não, não vi os melhores espíritos da minha geração.
Ou então se os vi não dei por isso.
Não tive essa poética ventura.
Os que vi
pouco mais eram que sombras
num equilibrio de sombras
entre o brilho metálico
das avenidas, em hora de ponta.
Os que vi
escondiam-se em tocas sujas
olhos piscos
cegos pela luz do aço na lâmina dos carris.
Escondiam a nudez por entre o lixo.
Por entre o lixo escondiam a própria fome.
De sagrado só tinham a urgência de facas cortando a pele.
Feridas de outras guerras
o sangue coagulado no tempo
Um vazio cheio de restos de comida, cartão velho, televisões partidas e um enorme cheiro a merda e água dos despejos.
Foi aí que ergueram o seu trono,
aí que limitaram o seu reino,
os melhores espíritos da minha geração.
A cavalo num burro
tomaram o céu de assalto
e o céu caíu-lhes em cima da cabeça.
O céu começou a chover-lhes cabeças de burro.
O ar encheu-se de gritos.
Partiu-se-lhes a mola do tempo,
enquanto ouviam passar os comboios,
perdendo-se no túnel,
devorando as entranhas da terra…
Os melhores espíritos da minha geração
andam à rasca a mostrar o cú a ministros
ou a dar o cú ao poder sodomita.
Mas esses não são os melhores espíritos da minha geração,
nem de geração nenhuma…
mas são os que temos.
Outros perdem-se em tertúlias, estúrdias, estapafúrdias.
A esses, a família enlutada deseja rápidas melhoras.
Então, por onde é que eles andam, os melhores espíritos da minha geração?!
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