terça-feira, 21 de fevereiro de 2006


a poesia
nunca há-de ser
uma deturpação
ou uma alienação
da realidade
porque
ela é
a própria realidade
ou
p'lo menos
a sua profecia



soa o silvo do aço
em sangue
grito que gorgoleja
na garganta
veia que se esvai
véu de névoa
torpor que trepa
tremendo
silêncio que se adensa
manso imenso
até que o frio se instala
e a mola
estala

o corpo todo entornado
p'la noite que se entorna
por cada canto
cantado na cadência
dessa morna voz
que sobe em arrastado
tom nocturno de indolência
o corpo todo entornado
no pecado
da inocência


o homem que julga saber tudo

tá safo

esse sim

já é

um idiota chapado





a escrita é uma bala de prata
apontada certeira
ao coração do real
vampiro sugador insaciável
do sangue do poeta

& lançando os olhos p'rò altíssimo
muito p'r'além das estrêlas
vejo deus em toda a sua magnânime & extra brilhante maravilha
piscando-me o olho
um pequenino olho sacana
um pequenino olho vermelho
da cor exacta de quem já bebeu um copo a mais
& digo
pai meu pai
meu deus todo poderoso
que se foda a taça & bebamos
enjorquemo-nos pois à tua glória
o teu sangue redentor que jorre em cascata
em remissão dos nossos pecados mortais
directo p'las nossas goelas mortais
& sequiosas de vida eterna
pai meu pai
deus de todos os meus vícios
tu que tudo podes
decerto também pecas
tanto ou mais que eu
senão não serias deus
nem eu te poderia
não nunca jamais
adorar assim desta maneira
desesperada e sôfrega
com esta loucura com que te adoro
pai meu pai
tu que tudo sabes
só tu poderás alguma vez entender
esta minha asfixiante metafísica
pai meu pai
perdoa-me eu nunca te ter perdoado
mas tu
pai meu pai
perdoa poe perdoa blake
perdoa ginsberg
perdoa whitman
& o diabo ele próprio
& todos
todos todos
todos os pobres diabos
os poetas bêbados &
todos os teus amigos &
todos os meus amigos
de quem só eu posso ser amigo
porque mais ninguém os grama verdadeiramente
& LMFG & ALG &
VAM~VAM & VLS &
os amigos dos meus amigos &
os amigos dos amigos deles
& se puderes todos os outros
todos mesmo os que eu não gramo
vá lá vá lá
que eu também podia ser santo se tu quisesses
& vá lá vá lá
perdoa-me a mim também
a mim que de certo modo
até me estou cagando p'ra ti
p'rò teu perdão
& p'rà tua familia toda


& amén
se for possivel...

I:
Sonhavas uma estrela peregrina
Uma clareira no meio da noite
O canto cristalino da guitarra
Uma cama de folhas e silêncio

E adoraste o fogo das palavras
Desafiaste o Tempo e seus mistérios
Meteste por desvios a horas mortas
Adormeceste em becos sem saída

Sonhavas uma estrada sem regresso
Súbita de pontes e surpresas
A vastidão serena dos desertos
A tranquila majestade das falésias

E a cada coisa que tocavas
Davas-lhe outro nome outro sentido
Era esse o teu tesouro o que tocavas
Em ouro se tornava o teu segredo


II:
Rasgaste numa noite a tua vida
Em gestos lentos todas as memórias
Num ritual de lágrimas contidas
Espalhaste assim ao vento a tua história

E o vento as misturou num rodopio
De frases sem sentido e de imagens
E o vento as arrastou por esse rio
De esquecimento p’ra outras paisagens


III:
Deve haver decerto qualquer coisa
Coisa que nem sempre é evidente
que se escreve a si própria qualquer coisa
Que apenas se insinua se pressente

Qualquer coisa que antes de ser dita
Já traz em si a razão verdadeira
Talvez nem eu a entenda mesmo escrita
Mas não podia ser de outra maneira

P’ra que serve dizes tu isso que escreves
Essa prosa em delírios alinhada
Coisas estranhas que nem tu próprio percebes
Para nada ora aí está mesmo p’ra nada
Suspense

o suspense suspenso sustém o tenso
suspeito sujeito de rosa branca ao peito
- range perto a porta surda -
- tange o sino pequenino -
calafrio sinistro frio do mocho coxo
voo cego do morcego
- desembucha feia bruxa! -
- corro fujo trapo sujo -
cheio de medo o arvoredo
cerra ferra a negra perra
- corro morro alho porro -
- salto muros e quintais -
suando suo suor suado
luzem luzes por todo o lado
- pés de chumbo que me afundo -
- ai meu deus é o fim do mundo! -

quais suspense
converseta
se perco esta
camioneta
só tenho outra
às oito e meia
e se calhar
já vem cheia


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006



ABANDONAI TODA A ESPERANÇA, VÓS QUE ENTRAIS



Tu eras como a hera no quintal
Trepando plas paredes do meu ser
Enchendo-me de gosma e coisa e tal
E teias d’aranha tás a ver
Tu eras a água que corria
Plas escadas da torneira do bidé
E o copo com a dentadura da tua tia
Tu eras, cada qual é o que é
Não foras tu portanto e logo pois
De rosas te encheria a boca cheia
Que graça tinha ouvir-te falar depois
Uma graça que tu nem fazes ideia

Já sei que brincas bem com as palavras
Que até brincas com o fogo e não te queimas
Agora queria ver como ficavas
Agora queria ir ao tira teimas
Já sei que sabes que eu nunca diria
Nada que magoasse ou te ofendesse
Agora queria ver como seria
Se um dia eu afinal sempre dissesse

Fazer um bom refrão tem muita arte
Pois tem toda a razão
Segunda parte

Só queria um tostão mesmo furado
Por cada vez que eu preguei no deserto
Nunca vi público mais interessado
Verdade seja dita já que é certo
Talvez seja verdade o que se diz
Que a vida tem de si que se lhe diga
Pois eu cá contas dessas nunca fiz
Nem vou contá-lo aqui numa cantiga

Fazer um bom refrão
Tem muita arte
Pois tem toda a razão
Terceira parte

E afinal no fundo e resumindo
De uma forma geral se se quiser
Pouco mais há pra dizer e já vou indo
Que era só o que tinha pra dizer

Fazer um bom refrão
É importante
Este aqui saíu-me num instante

domingo, 19 de fevereiro de 2006

Gato estúpido

De que forma estúpida gastaste
as tuas sete vidas
de que forma estúpida te foste
assim sem despedidas
de que forma estúpida cegaste
de que forma estúpida paraste
enquanto a luz crescia
para ti
e tu ali parado e tu ali
e a morte a relinchar
um tempo suspenso no tempo
o tempo de levares com o tipo em cima
estúpido gato
parece que nunca viste um automóvel
Promete-me , disse ela.
Prometo...
Promete-me que me amas!
Tu queres que eu te prometa...
Ou p’lo menos que me dizes quando deixares de me amar! ... Promete!
Prometo que te amarei até á morte, disse ele apontando-lhe o dedo á cabeça como uma pistola.
Bang! Prometo.

E eu quero só poder viver com os meus defeitos
Sem prestar contas das minhas contradições
E ser perfeito assim mais do qu’imperfeito
De pontas soltas feito um fio de imperfeições

A mancha esmagada do pássaro no passeio
No cais
A velha sereia do mar estende os braços metálicos sobre as águas
Pesa-lhe o céu
Roça-lhe os flancos a pedra gasta
Ao longo da estrada
Do outro lado da rede
A fila interminável de vagões amarelos espera que a paisagem se ponha em movimento
Metralha a chuva o vidro do táxi
O pêndulo frenético do limpa pára brisas
Soa como um alerta de pânico
Os silos silenciosos cobrem-se de pó e sujidade

Passa a mão suja
Limpando o suor da nuca
O taxista
Merda de tempo
P’rá noite vai ser pior
Que se foda
Encosto esta merda e que se foda

O vento dobra a espinha da noite
Força-a a posições dolorosas
É dela o uivo aflito
Que entra p’las janelas

Ouça
E se for assim amanhã
Encosto esta merda e que se foda

A mancha esmagada
Do pássaro no passeio


6 dez. 00

O café do Castelo


O Cardoso teve uma trombose mas não largou o JB e até usa a boca ao lado que lhe ficou da macacoa para aberlaitar a prosa ao balcão. Peito inchado boca ao lado voz enrolada na beiça mole enquanto debita sociais caligramas d’ir ao cu. Permite-se mesmo enterrar a mão no bolso p’ra coçar os colhões e contar os trocos. O JB quente não presta mas o gajo grama. A olhar p’rá rua.
O Fernando também não se pode rir muito. É a tosse. Ortorrômbico careca calções e chinelos andar arrastado marreco saco plástico titubear de maluco. Então tá bom? Sr. Fernando! Gosto em vê-lo. Sai a porta p’ró fim da tarde saco plástico rasto de baba no ar e no chão do café.
No nosso coração há lugar p’ra todos filósofa loira cortado curto.
O Cardoso larga um sonoro Boa Tarde com a boca cheia de batatas. A gorda do balcão bate com as mamas na esquina do telefone diz ela a ruiva de costas também dei o meu grito do Ipiranha. O morenaço fanhoso vai alimentando a conversa ao mais alto nível falam de amor em geral e dos filhos em particular converseta de férias filosofia de alcofa cenas conjugais cenas que como sabeis podem ou não tornar-se obs/cenas. Depende sempre de como as conjugais...

Do autor pouco se sabe e ainda bem.
Sabe-se que nasceu, o que, a confirmar-se, explica muita coisa. Por exemplo, o ter escrito os textos que ora nos orgulhamos de apresentar ao respeitável público.
Fixemo-nos então nos textos.
Partindo de um par de dados adquiridos – e comprovados mesmo, em jogos de azar, um pouco por todo o lado e até quase do outro lado – o editor conformou-se em chamar-lhes poesia e nessa conformidade espalhá-los, em gesto de semeador, por sobre as páginas, onde – como se poderá ver – lá foram caindo de forma quase poética.
No seu vazio de conteúdo, estes textos assumem-se abertos a quase tudo, até mesmo à hora de almoço, o que, só por si, explica muita coisa, já que, como é sabido, as boas almas e os grandes espíritos não têm hora certa para almoçar.


Jogo as pedrinhas na mesa
Rolo as pedrinhas na mão
Lanço-as com ligeireza
Uma delas cai no chão
E das quatro que ficaram
Pego e volto a jogar
Uma vez e depois outra
Até só uma sobrar

Vivo entre as memórias e o sonho
Num mundo paralelo á realidade
Onde tudo é tão fantástico e medonho
Bom demais até p’ra ser verdade

Um mundo todo ele ao meu tamanho
Onde tudo se transforma, o que nomeio
E o medo que não digo, mas que tenho
Com um dedo se desfaz e parte ao meio

Um mundo onde o tempo tão veloz
Me leva numa dança sem sentido
Num rodopio de cores extraordinárias

Onde o silêncio escuta a minha voz
Onde o silêncio diz ao meu ouvido
As coisas mais cruéis e necessárias

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006


vai discursar o 1º ministro.
a assembleia está repleta de rostos graves e atentos.
a voz off descreve o ambiente: "vai discursar o 1º ministro..." e a voz off faz uma pausa.
sobrepoem-se os dois silêncios, o da voz off e o da assembleia que espera as palavras do 1º ministro.
vai discursar o 1º ministro e quando começa, recomeça também a voz off descrevendo o 1º ministro, que "veste fato italiano, camisa de popelina, risco ao lado, gravata de seda, os sapatos, muito chique", cada gesto e inflexão de voz; a voz off chama o comentador à conversa, que explica as escolhas da ministerial farpela e o simbólico significado de cada gesto e inflexão.
o 1º ministro pára para beber água. a voz off anuncia que "o 1º ministro parou p'ra beber água". o 1º ministro bebe água. os dois silêncios sobrepoem-se, do ministro e da voz off. o 1º ministro recomeça a falar. a voz off continua no mesmo exercício anterior até às palmas finais...
"e parece que acaba de terminar o discurso em que o 1º ministro veio anunciar que... ?"
uma 3ª voz, ainda mais off completa a frase: "que vai aumentar o IRS!
"ah! (- voz off): é chique!"
HAIKU
HAIKU KURU KUKU PALOMA !!!
como quem diz
ai K'u caraças do cão
NO MEIO DA NOITE
O CÃO CHEIRA O BISCOITO
CÃO PRETO
COMO O BREU
A MIJAR CONTRA O PNEU

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006


& às vezes olhando bem
p’ra certas coisas que faço
penso que a mim me coube
ai o papel de palhaço

ai o papel de palhaço
equilibrado num fio
suspenso sobre um abismo
ai de causar calafrio

equilibrado num fio
& lá em baixo na pista
rufam pandeiros tambores
pela morte do artista

& lá em baixo na pista
em suspenso a multidão
espera ansiosamente
vê-lo estatelar-se no chão

& em suspenso a multidão
espera p’lo passo fatal
para o poder aplaudir
numa risota geral

espera p’lo passo fatal
espera que ele dê o tal passo
que ele leve até ao fim
o seu papel de palhaço

mas ei-lo que pára a meio
levanta um pé pára de novo
& desapertando a braguilha
mija em arco sobre o povo


21 maio 84
Portugal, andas-m’a roubar
Á descarada, á luz do dia,
Nas minhas barbas, quem diria !?,
Logo a mim, que nem barba tenho...


Portugal, andas-m’a roubar
Sem respeito nem pudor,
Oh pequenino estupor,
Paízinho de baba e ranho!

E fomos até à coisa mais íntima
Com a cunhada da vítima
Quase à beira do paroxismo
Por entre os escombros do sismo
Lançámos a notícia p’las redes
E o sangue p’las paredes
CASAL VENTOSO #1



Não, não vi os melhores espíritos da minha geração
morrendo à fome, histéricos, nús…
Nem anjos de cabeleiras loiras adejando por sobre os telhados do Casal Ventoso.
Vi o junkie de cócoras, cagando indiferente, à beira da estrada.
E os autocarros a passar cheios de outros junkies sujos e cambaleantes.
Vi as barracas na cerca de rede.
Um amontoado de tábuas apanhadas no lixo e trapos imundos,
restos de cobertores ensopados de mijo e água da chuva.
Vi-os em fila à espera da sopa.
Vi-os espalhados pela encosta, em pequenos grupos silenciosos.
Vi-os e fizeram que não me viram,
olhos vidrados, faces macilentas, andar arrastado.
E sei que naqueles olhos nunca há-de brilhar nenhuma estrela.
Sei que naqueles olhos só a noite se adensa.
E cada vez mais.
E que nenhum clarão de génio os há-de iluminar.
Que aqueles passos nunca os hão-de levar a nenhuma clareira de nenhum bosque encantado.
Vi-os submissos esmolando a seringa,
Vi-os tartamudeando frases sem nexo -
códigos vazios de sentido -
Vi-os perseguindo a própria sombra,
definhando,
todo o corpo exalando um insuportável cheiro a morte.
Pois não, não vi os melhores espíritos da minha geração.
Ou então se os vi não dei por isso.
Não tive essa poética ventura.
Os que vi
pouco mais eram que sombras
num equilibrio de sombras
entre o brilho metálico
das avenidas, em hora de ponta.
Os que vi
escondiam-se em tocas sujas
olhos piscos
cegos pela luz do aço na lâmina dos carris.
Escondiam a nudez por entre o lixo.
Por entre o lixo escondiam a própria fome.
De sagrado só tinham a urgência de facas cortando a pele.
Feridas de outras guerras
o sangue coagulado no tempo
Um vazio cheio de restos de comida, cartão velho, televisões partidas e um enorme cheiro a merda e água dos despejos.
Foi aí que ergueram o seu trono,
aí que limitaram o seu reino,
os melhores espíritos da minha geração.
A cavalo num burro
tomaram o céu de assalto
e o céu caíu-lhes em cima da cabeça.
O céu começou a chover-lhes cabeças de burro.
O ar encheu-se de gritos.
Partiu-se-lhes a mola do tempo,
enquanto ouviam passar os comboios,
perdendo-se no túnel,
devorando as entranhas da terra…
Os melhores espíritos da minha geração
andam à rasca a mostrar o cú a ministros
ou a dar o cú ao poder sodomita.
Mas esses não são os melhores espíritos da minha geração,
nem de geração nenhuma…
mas são os que temos.
Outros perdem-se em tertúlias, estúrdias, estapafúrdias.
A esses, a família enlutada deseja rápidas melhoras.
Então, por onde é que eles andam, os melhores espíritos da minha geração?!

Vivemos uma enorme tristeza
Apesar dos risos e das danças
Apesar da música e do espalhafato
Cheios de boas intenções
Sacrificamo-nos
Uns aos outros e a nós próprios
Na praça pública




O homem político
É um animal raquítico
De pensamento paralítico


11/9/03

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006







SUBIA A LUA MÁ NO HORIZONTE
TREPANDO PELAS PEDRAS DESCARNADAS
ERRANDO POR ENTRE AS ESCARPAS DO MONTE
FITANDO A MORTE NAS ENCRUZILHADAS

BALANÇANDO-SE NOS RAMOS MAIS SOMBRIOS
CRAVANDO NAS CLAREIRAS SEU CLARÃO
CAINDO SOBRE O SILÊNCIO DOS RIOS
FERINDO SEM PIEDADE A ESCURIDÃO

DESCIA SOBRE AS COISAS SOBRE A GENTE
COM ESSA MANSIDÃO QUE TÊM OS SONHOS
OU COMO UMA CANTIGA D’EMBALAR

P’RA NOS LEVAR DEPOIS INDIFERENTE
POR CAMINHOS PERDIDOS E MEDONHOS
CEGOS JÁ P’LA NOITE E P’LO LUAR








15/01/06



Luzes molhadas do outro lado do
vidro
olhos d’água
a língua negra
do asfalto
noite lenta por entre a sombra
das luzes
corre o frio recorte do comboio
fricção de rodas nos carris
trovejar de ferro contra ferro
personagens silenciosas
cada qual na sua vida
é uma e tal da manhã
hora em que nada acontece
levanta a gola
mãos nos bolsos
(vejo-a) triste a morte
desce(ndo) do comboio
em movimentos sinuosos
de gato preto.

3ª missiva
de Belfaghor
para a minha morte



& uma certa manhã acordas
‘ssim meio sobressaltado
& está um bicho medonho
deitado mesmo a teu lado
& olha-te c’um ar sinistro
que arrepia só de vê-lo
tu calculas qu’ele seja
a sombra de um pesadelo
& ao tentares te levantar
ele esboça um movimento
& é como se o mundo inteiro
parasse nesse momento
tu perguntas o que é isto
o que foi que aconteceu
& ele olha-te nos olhos
com um ar de desafio
& aí sentes as tuas costas
rasgadas por um calafrio
& tu rogas uma praga
& um eco dentro de ti
ressoa como uma voz
que cinicamente se ri
& se levantas o braço
p’r’afugentar a visão
sentes uma garra de aço
a apertar-te o coração
& o olhar do intruso
trespassa-te lado a lado
& todo o teu corpo treme
com um frémito gelado
& aí perdes a força
aí perdes a coragem
& entregas-te em rendição
e deixas-te ir na voragem
& ele sorri satisfeito
& c’um hálito azedo
vem sussurrar-te ao ouvido
meu filho não tenhas medo
& tu fechas os teus olhos
& com um sorriso terno
essa estranha personagem
te levará p’ró Inferno

& às vezes é tão difícil
fazer a vida rimar
quando tudo à nossa volta
nos incita a abandonar
toda a ‘sperança & a sair
pela porta desolada
que se fecha para a vida
que se abre para nada
às vezes é tão difícil
dar um pontapé na sorte
puxar as orelhas à vida
apalpar o cu à morte
& bater o pé no chão
tocar o carro p’rá frente
quando o que nos apetece
é fugir de toda a gente
às vezes é tão difícil
forçar as pernas a andar
quando só nos apetece
ficar sentado a chorar

terça-feira, 7 de fevereiro de 2006




Júpiter, 29 de abril de 1999

da vida duvidosa dividida

da dúvida que duvida da vida

da vária desvairada variedade

que dá de viva voz

a outra verdade

a verdadeira dor que doendo diz

o que dizendo

disse o que não quis

ab


Schlafamengue-se o que se schlafamengar
schlafamenga-se sempre menos do que se pode desejar
que a schlafamenguência, sem ofensa, tá clar’
schlafamenga minga, do verbo mingar
minga da menga na manga ao mongar...
manga da monga,
aminga do meu amingo
meu amingo mango







28-12-1998
lua. 25/2/91



não é a alma coisa vaga
ou a mente sublime embuste
é o espírito ele próprio
desancado quase morto

sempre as palavras sempre plural
destilado veneno do Mal


não é a Vida
o leito intranquilo
não será decerto o sonho roubado
ou a sua revolta


caminhando semeando máscaras
- usar & deitar fora -
roupas certezas devoções

nem o silêncio das pedras
a sua imobilidade
tudo parece ser aparente
aparentemente

descrente de tudo contudo de acordo
num supremo esforço de boa vontade

o gosto do sangue no fundo da garganta

um manso desejo sinuoso
a mão que empunha a faca
& a empurra com luxúria
para dentro

no centro da sala o corpo caído
o silêncio de pedra gela o ar
estilhaça todos os espelhos

a escrita é um código cerrado
falar
um monumental engano
passei um bocado da minha vida
à procura de gente
só encontrei gentinha
queria pessoas
& só descobri gajinhos

ai o amor
de tão cantado
coitado
em que estado o tens
vazio
esgotado
o amor desencantado
ai esta dor
cansada
pisada
diz-me ao que vens
oh dor
horror que morde
& não ladra

vénus. Setembro/90

sábias e avisadas palavras
bramavas
brâmane no deserto
perto
al bino o beduíno
escutava absorto
arremelgando o olho torto
muito aberto

quarta-feira, 25 de janeiro de 2006



O suspeito foi visto às 8 da tarde no marquês de pombal a comer pipocas



FUI P’RÓS COPOS
COM A MINHA TIA EM MARROCOS
HIP HOP
APANHÁMOS UMA CAMADA DE ESTAFILOCOCUS
HIP HOP
É O QUE FAZ O IR P’RÓS COPOS
É O QUE FAZ O IR P’RÓS COPOS
IR P’RÓS COPOS
COM A MINHA TIA EM MARROCOS



FUI À FEIRA
COM A MINHA AVÓ QUANDO ERA FREIRA
HIP HOP
FUI À FEIRA
E ELA COMIA QUE NEM UMA FRIEIRA
HIP HOP
SE NÃO LHE DOU COM UMA CADEIRA
AINDA ME TINHA REBENTADO
A MINHA AVÓ
QUANDO ERA FREIRA ERA UM TRATADO


FUI À PRAIA
COM A MINHA PRIMA SORAIA
HIP HOP
FUI À PRAIA
COM A MINHA PRIMA SORAIA
HIP HOP
NÃO HÁ VEZ QUE ELA NÃO SAIA
QUE A COISA NÃO DÊ RAIA
VEIO UM CÃO
E EM VEZ DE NO CHÃO
ELE FEZ NA SAIA


FUI À PRAÇA COM A MINHA VIZINHA DE BAIXO
HIP HOP
FUI À PRAÇA COM A MINHA VIZINHA DE BAIXO
HIP HOP
ELA A COMPRAR VINHOS FINOS
E EU NO TINTO DO CARTAXO
TAMBÉM NO FIM
NÃO A AJUDEI
A TRAZER OS SACOS

FUI AO CIRCO COM OS SOBRINHOS E A CUNHADA
HIP HOP
MUITO GIRO A MATINÉ FOI ANIMADA
HIP HOP
O LEÃO PICOU-LHE A MOSCA
E SALTOU PARA A BANCADA
FOI CUNHADA FOI SOBRINHOS SOBROU NADA

FUI À FESTA E FARTEI-ME DE DIVERTIR
FUI À FESTA E FARTEI-ME DE DIVERTIR
ARMOU-SE UMA CALDEIRADA
IA LEVANDO UMA FACADA
NÃO FOSSE ISSO
E AINDA HOJE
ME ESTAVA A RIR

*~*
júpiter. 26/4/90

parado na esquina
de um gesto suspenso
escutando em surdina
o som do silêncio
o poeta vê
no espanto da bruma
desenhar-se o contorno
de coisa nenhuma
*~*

saturno. 28/4/90

como flores
as palavras se desfolham
& o vento as leva
no ar fica a memória
o cheiro cada vez mais leve
que só a pele da alma
poderá reter eternamente
& das flores
o que fica?
as hastes secas
morte inglória de tudo o
que fica por dizer...
a palavra essencial
que o tempo
sem pudor
varrerá para o lixo
*~*

Cai neve na Brandoa
Na praceta da Estação
Que nunca uma pessoa
Viu semelhante nevão

É uma coisa inusitada
Que não tem explicação
Vai-se a ver e tarda nada
Cai neve no Algueirão

Fica parva a gente esperta
E os que já eram coitados
Mas uma coisa que é certa
Ficam todos espantados

Cai neve na Brandoa
Oh milagre divinal
Como é uma notícia boa
Talvez abra o telejornal

Parece que estou a ver
O pivô engravatado
Muito direito a dizer
Cai neve aqui ao lado

E a malta inadvertida
Que a atenção não acompanha
Pensa que a neve caída
Foi ao lado mas em Espanha

Mas quando o homem s’explica
Ao lado aqui em Lisboa
Toda a orelha se arrebica
Cai neve na Brandoa

Sei que parece improvável
Mas é verdade que eu vi
De um lugar bem confortável
A bem dizer foi daqui

quinta-feira, 12 de janeiro de 2006






sei que, para muitos de vós, esta é já uma notícia sem interesse, por atrasada no tempo e desenquadrada da quadra. mas a verdade é que o assunto, por mais antigo e velho que seja, todos os anos volta a ser motivo de conversa, controvérsia e muita alegria: o nascimento do cristo, jesus de nazaré, filho da casa de david e do próprio espírito santo, por vontade expressa do inominável. pois a história começou a dar que contar logo desde aquela noite, em tudo igual a tantas outras noites na velha jerusalém, em que o fumo das chaminés perfumava o céu da cidade de aromas embriagadores e hipercalóricos, uma noite normal em jerusalém ocidental... uma noite normal, até que!


pois o resto é História com agHá grande e vem nos livros, os sagrados e os outros. esta que vos conto agora vem só nos outros, que foi onde a fui buscar, aqui há uns anos e que, desde então, me tem seguido como um cão com guizos. é a história de uma noite normal, também, como a que vos falava antes. uma noite de que se sabe que estava fria, porque o texto o diz expressamente e que seria de carapaus fritos ao jantar para alguém, eventualmente uma certa Conceição e um incerto José Quaisquer coisa...
Mas vamos ao ocorrido...


No meio de um grande cheiro a fritos,
irrompeu pela sala ao gritos,
c’uma espada de cartão,
o arcanjo Gabriel
trazendo na mão um papel
e estatelou-se no chão.
E a Conceição, que fritava
carapaus para o jantar,
entre divertida e zangada
perguntou com voz cansada:
“já nem se bate antes de entrar?!...”
E o arcanjo levantou-se,
tossicou e aprumou-se
e c’um olhar de desdém
lançou o papel sobre a mesa
e declarou com voz tesa:
“avé Coisa, vais ser mãe!”
E a Conceição, que fritava
carapaus para o jantar,
entre divertida e zangada
respondeu entaramelada:
“tu deves estar a brincar!”
E o arcanjo Gabriel,
muito senhor do seu papel,
muito senhor do seu nariz:
“vais ser mãe, foi decretado.
Vais conceber sem pecado,
o Senhor assim o quis”.
E a Conceição, que fritava
carapaus para o jantar,
largou o garfo da mão
e olhou o figurão
cima abaixo devagar:
“eu não sei o que tu queres,
mas bendita entre as mulheres
seja a perra que te pariu.
Espera aí um bocadinho,
se quiseres, tens aí vinho
e fecha a porta, que está frio”
E o arcanjo Gabriel,
muito senhor do seu papel,
lá cumpriu a profecia
e cedo, ao romper do dia,
bateu asas e partiu.

E o José nunca soube
bem ao certo o que é que houve...
mas, sem rancor e amarguras,
glória a Deus lá nas alturas.

Quanto ao rebento, pois bem
lá nasceu, forte e bonito.
Do pai, era a cara da mãe
e olhos de carapau frito.


passando ao discurso directo, é chegada, talvez, a hora e a altura de vos cumprir, ou justificar pelo menos, uma promessa que vos deixei, aqui há umas glosas atrás.
falo de uma certa assim chamada e auto proclamada antologia da poesia portuguesa de todos os tempos, mesmo os mais tristes e dificeis aos que ainda estão para vir. enfim, uma obra arrojada e corajosa, mas que, é como o outro, já está, já está.
entretanto, ou porque mudei de ideias e resolvi, afinal, não atirar nenhum dos textos para a rede, ou porque me deu a perguiça, até mesmo para voltar a pensar nisso, a verdade é que nunca o cheguei a fazer e já lá vão uns dias largos. mas festas passadas não pagam dívidas.
e porque me lembrei agora, lá vai
e aqui fica... respeitando e celebrando ainda, o mesmo é dizer, embebido do mais inefável espírito da época que ora fina... com todo o trapio... (entre parenteses para que conste e justiça lhe seja feita, a seguinte recreacão histórico-místico-gastro-enterolosófila foi recolhida por VS, o lucas, que fecha o parenteses em apreço)
... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Vieram três reis de longe,
até Belém, aos pastéis.
E apenas por três reis
foi até deitar por fora.
Vejam lá, se fosse agora,
nem com três contos de reis.
Vieram três reis de longe,
guiados por uma estrela
que lhes marcava o destino,
isto para além das outras
que marcavam as garrafas
que tinham, de Constantino.
Foram ter a uma gruta
e viram uma criancinha
c’uma rodela de ananás
à volta da cabecinha.

A mãe, a Virgem Maria,
e o pai, o Zé Carpinteiro,
como andassem sem dinheiro,
tinham feito uma vaquinha
c’a rapaziada amiga
p’ra comprar um aquecedor,
donde aquela história antiga
de que o bafo da vaquinha
era a fonte de calor.

“E o burro?”, perguntará
o leitor habituado
a estas coisas do Natal.
Pois bem, há dois em vez de um,
que é o que é habitual:
um sou eu, é bom de ver,
por estar assim a perder
o meu tempo desta maneira;
o outro é Vossa Excelência,
a quem gabo a paciência
de me estar p’r’àqui a ler -
não era então de prever
que daqui saía asneira?
...
(Não sei se já repararam,
mas no poema, afinal,
há apenas uma quadra:
é a quadra do Natal!)
... ... ... ... ...

Buzilames fracam zirgos
nas curinas ancoradas
farazuntam
buscam prigos
´lamastantam reicroadas

buzilames fracam tercos
pingoscai na mó de baixo
remiuntam
entre nercos
sabrimantam em descaixo

farazuntam
remistantam
entre nercos buscam prigos
enquantanto cresce o caixo
da ferúndia nos umbigos

terça-feira, 13 de dezembro de 2005


Não gozes com a Luizinha
Que o pai dela é guarda freio


Tu estragas-me com mimos
Se vamos ao cinema
Trazes a prima e os primos
És cheia de surpresas
Se vamos ao café
Só olhas para as outras mesas
És mesmo especial
Já sei o que vou dar-te
De presente p’lo Natal
A borla de um boné
Um saco de farinha
Duas sacas de café





e daqui vos anuncio em primeira mão e em directo a futura publicação de uma assombrosa pérola da literatura actual de todos os tempos, até mesmo dos mais conturbados e cinzentos.
falo-vos, pois de uma sofisticada e cuidadosa antologia da poesia portuguesa desde a idade média e até amanhã. obra asseada e respeitadora do mais indelével rigor histórico e linguístico.
obra de que vos deixo uma pequena introdução explicativa exaustiva quanto baste e vaga até á exaustão


A poesia portuguesa através dos tempos
Isto a poesia portuguesa através dos tempos já é uma coisa muito antiga.
País de poetas e de marinheiros, uma boa parte da produção poética nacional tem muito a ver com água. Senão, vejamos: grandes obras escritas aos tombos nos tombadilhos, poetas enjoados, poemas de ler e mandar borda fora, poesia de água e sal, literatos enfunados e cheios de proa, vates a remos e epopeias a vapor.
Não é líquido, no entanto, que a poesia portuguesa através dos tempos não tenha também a ver com vinho: rimas a martelo, verdes e maduras, vilancetes palhetes, redondilhas digestivas, endechas generosas, sonetos em cascos de carvalho e odes da pipa a escorrer.
Claro como a água: muito tinto há-de ainda correr debaixo das pontes. Por isso, não vos tomamos mais tempo. Obrigado por terem vindo, que quando se fala de poesia o outro abaixa as orelhas.

a cerveja


A CERVEJA






-ESTÁS MUITO CALADO
-ESTOU A PENSAR
-E...
-E ACHO ESTRANHO
-ISTO É TUDO MUITO ESTRANHO, ESQUECE. BEBE UMA CERVEJA
-ACHO ESTRANHO QUE NINGUÉM TENHA CHAMADO A POLICIA
-E O QUE É QUE A POLICIA PODIA FAZER?
-SEI LÁ! PODIA CHAMAR OS BOMBEIROS!
-A POLICIA DE AQUI NÃO GOSTA DE BOMBEIROS. FAZEM TUDO O QUE PODEM PARA LHES DIFICULTAR A VIDA. PASSAM A VIDA A TELEFONAR-LHES COM FALSOS ALARMES DE INCÊNDIO. DEPOIS MULTAM-NOS POR EXCESSO DE VELOCIDADE E DESACATO É ORDEM PÚBLICA
-NÃO SEI, BRUCE, CONTINUO A ACHAR ISTO TUDO MUITO ESTRANHO!
-DEVE SER DO VINHO QUE BEBESTE. ESTÁS BÊBADO QUE NEM UMA VACA. BEBE UMA CERVEJA
-ACHAS QUE A SENHORA WILSON SABIA?
-A SENHORA WILSON É SURDA, NÃO PODIA SABER
-ALGUÉM LHE PODE TER MANDADO UMA NOTA
-SE MANDARAM, GASTOU-A, PROVAVELMENTE EM SELOS
-NÃO ACHO. QUERES QUE ABRA A JANELA?
-ABRE ANTES MAIS UMA CERVEJA!
-ANDAS A BEBER MUITO!
-NEM POR ISSO. COSTUMO PARAR PARA FAZÊ-LO. BEBER A ANDAR,OU ANDAR A BEBER NÃO ME DÁ JEITO, ENTORNO TUDO E FICO TRISTE
-PENSAS MUITO, É O QUE É. POR ISSO TE ENTRISTECES
-O RAPAZ DOS TELEGRAMAS CONTINUA A SER UMA PEÇA SOLTA NESTA ENGRENAGEM...
-ENTÃO É ISSO! EU JULGAVA QUE O BARULHO ERA DA BICICLETA , AFINAL A PEÇA SOLTA É ELE PRÓPRIO. FOI ISSO QUE O VELHO FORBES DIZ QUE OUVIU DEBAIXO DA JANELA.
-O VELHO FORBES NÃO SE PODE CONFIAR NELE. PASSA A VIDA A OUVIR COISAS. DESDE QUE AQUELA GRANADA LHE ESTOIROU OS TÍMPANOS QUE O VELHO FORBES OUVE COISAS, PRINCIPALMENTE GUINCHOS.
-.ISSO É VERDADE
-POIS É. VAI UMA CERVEJA?...
BARDAMERDA, VAI TU!